Nesta quinta-feira (10), a Polícia Federal cumpriu 49 mandados da Operação Make Up, autorizada por Flávio Dino para apurar se emendas destinadas a entidades presididas por Karina Gama foram desviadas por fornecedores e chegaram à Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse. Na casa da empresária, os agentes encontraram uma declaração registrada em cartório na qual ela nomeia três pessoas que, segundo diz, a pressionaram a delatar Flávio Bolsonaro.
O jornalista citado é Breno Pires, repórter da piauí e autor de uma série de reportagens sobre o financiamento do filme. Os outros dois são Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney, e um pastor não identificado. No documento, ao qual A Investigação teve acesso, Karina afirma que Pires a incentivou a fazer uma delação premiada e disse que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”.
Segundo a declaração, Fernando Sarney teria oferecido apoio jurídico em maio e alegado proximidade com Dino; o pastor teria dito, em 27 de agosto, que Karina evitaria uma operação se delatasse; e Pires, em 3 de setembro, teria dado a entender que a recusa poderia resultar em medidas judiciais. O texto foi assinado nesse mesmo dia, em que Dino autorizou as buscas, e teve firma reconhecida em 4 de setembro, seis dias antes da operação.
Não há áudios, mensagens, registros telefônicos ou testemunhas que corroborem as conversas. A declaração demonstra que Karina formalizou a versão antes da busca, mas não prova coação nem coordenação entre os três interlocutores e autoridades. Fernando Sarney negou conhecer a empresária ou ter tratado de delação. Pires não quis se manifestar.
Karina nega irregularidades, afirma ter cooperado com as autoridades e sustenta que não possui fatos criminosos para delatar. Na declaração, diz que os projetos empresariais e a cadeia de produção do filme foram conduzidos legalmente.
Mário Frias classificou a operação como “cortina de fumaça em ano de eleição”, disse que não havia mandados de prisão e afirmou que as emendas foram aplicadas legalmente. Flávio Bolsonaro, que não foi alvo das buscas desta quinta-feira, acusou Dino de interferência política.
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O que Karina registrou antes da busca
O primeiro contato descrito por Karina teria partido de Fernando Sarney. Ela afirma que ele a procurou em 20 de maio e que os dois conversaram no dia 22, às 9h07. Segundo o documento, Sarney ofereceu apoio jurídico, disse ter “grande proximidade” com Flávio Dino e afirmou que poderia ajudá-la se ela tivesse interesse em fazer uma delação premiada.
Karina ressalva que a menção ao ministro partiu exclusivamente de Fernando Sarney. Diz não ter presenciado conversa entre os dois nem possuir elementos para afirmar que Dino soubesse da abordagem. Sarney negou o episódio ao Radar, da Veja: afirmou não conhecer a empresária e jamais ter tratado de uma delação sobre Dark Horse.
Dino e o grupo Sarney foram adversários nas eleições do Maranhão de 2014 e 2018, mas se aproximaram nos anos seguintes. Em 2021, o então governador procurou José Sarney em busca de apoio para uma vaga na Academia Maranhense de Letras. Em 2022, o MDB de Roseana Sarney apoiou Carlos Brandão ao governo e Dino ao Senado. O histórico dá contexto à alegação de proximidade; não comprova a conversa narrada por Karina nem uma ordem do ministro.
O relato mais grave envolve um pastor que Karina descreve como amigo antigo, mas não identifica. Na ligação de 27 de agosto, às 11h22, ele teria afirmado conhecer integrantes do governo federal e ministros do STF. Pessoas ligadas a essas autoridades, segundo o religioso, teriam pedido que ele oferecesse à empresária a possibilidade de uma delação.
O recado atribuído ao pastor era que, se Karina colaborasse, “nada ocorreria” e ela não seria alvo de operação policial. A empresária respondeu que não tinha crime a confessar e esclareceria os fatos por documentos e por sua defesa. No dia seguinte, a PF pediu ao Supremo autorização para as buscas. Não há indicação de que Karina conhecesse o pedido, que corria sob sigilo.
Em 3 de setembro, Breno Pires fez o contato descrito na declaração. Karina afirma que o repórter já havia perguntado sobre uma delação “no sentido de me incentivar a realizar tal procedimento”. Na nova conversa, ele teria dito que ela estava “servindo de bucha de canhão para o candidato”. A empresária interpretou a frase como indicação de que poderia sofrer medidas judiciais se não colaborasse. Essa consequência é a interpretação registrada por Karina, não uma fala literal atribuída ao jornalista.
No mesmo dia, Karina assinou o documento e Dino autorizou a operação. A firma foi reconhecida em 4 de setembro. A declaração foi preparada expressamente para demonstrar que o temor antecedia uma eventual medida contra a empresária. Seu valor probatório, porém, é limitado: o registro cartorial fixa a data e a autoria da narrativa, não atesta que os fatos ocorreram como ela diz.
Breno Pires, a piauí e o histórico no STF
Breno Pires é repórter desde 2008, formou-se pela Universidade Federal de Pernambuco e chegou a Brasília em 2016. Trabalhou cinco anos no Estadão e integra a piauí desde 2022. Seu perfil profissional o apresenta como jornalista dedicado à fiscalização do poder público e de suas relações com a economia. Em 2020, foi pesquisador visitante na Universidade Columbia. Hoje é diretor da Abraji no biênio 2026–2027.
Em 2017, ainda no Estadão, Pires revelou a “Lista de Fachin”, formada por 83 decisões que abriram investigações contra mais de cem autoridades e políticos citados nas delações da Odebrecht. O material estava sob sigilo e, segundo o próprio jornal, foi obtido pelo cruzamento de dados de verificação das decisões. A reportagem venceu uma categoria do Prêmio Petrobras de Jornalismo.
No caso Dark Horse, Pires vinha publicando uma sequência de reportagens quando procurou Karina. Em 1º de setembro, a piauí mostrou que Vorcaro enviou mais US$ 1,6 milhão ao Havengate em 16 de setembro de 2025, depois do período apontado por Flávio Bolsonaro como o fim dos pagamentos. Entre os dias 1º e 3, o jornalista também publicou textos sobre as emendas de Mário Frias, os metadados de um documento da Go Up e a atuação de um intermediário entre Flávio, Vorcaro e a produção.
A piauí foi fundada em 2006 por João Moreira Salles — documentarista, produtor e herdeiro do Itaú. Em 2025, foi listado como a 15ª pessoa mais rica do Brasil, pela revista Forbes, com uma fortuna de R$25,5 bilhões. Desde outubro de 2021, segundo a descrição institucional da própria revista, ele deixou de ser publisher e financiador, e a publicação passou a operar com um fundo patrimonial doado ao Instituto Artigo 220, associação sem fins lucrativos. Salles permanece entre os sete integrantes do Conselho Editorial, ao qual responde o diretor de redação.
Registros eleitorais compilados a partir do TSE mostram diversas doações de João e Walther Moreira Salles a candidaturas do campo da esquerda: os irmãos destinaram cerca de R$ 2,3 milhões a 23 candidatos em 2022; neste ano, João doou R$ 50 mil a Abidan Henrique, do PSB.
O dinheiro investigado na Operação Make Up
A PF cumpriu 49 mandados de busca em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Dino também proibiu 29 pessoas de deixar o país ou manter contato entre si e suspendeu 22 empresas e entidades de contratar com o poder público. Karina e o deputado Mário Frias, produtor-executivo e roteirista de Dark Horse, estavam entre os alvos.
O inquérito apura se recursos de emendas destinados ao ICB e à Academia Nacional de Cultura, ambas presididas por Karina, foram desviados por fornecedores ligados entre si e chegaram à Go Up. Frias destinou R$ 2 milhões ao ICB. Num dos projetos, R$ 700 mil foram pagos à Dinâmica Editora e ao Instituto Super Poder Educacional. Depois, a NTT Brasil, ligada ao mesmo núcleo empresarial, transferiu R$ 750 mil à produtora.
Os investigadores também identificaram cerca de R$ 645 mil enviados por Frias à Go Up em menos de 60 dias e R$ 1 milhão transferido por Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro. Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período parcialmente coincidente com as filmagens, a produtora movimentou aproximadamente R$ 19 milhões em créditos e débitos. Os valores foram detalhados depois que Dino retirou o sigilo da decisão.
O caso inclui ainda o contrato de R$ 108 milhões do ICB com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi e a compra de um veículo de cerca de R$ 102 mil, paga integralmente em espécie. A PF investiga peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. As suspeitas e as medidas cautelares não representam condenação dos alvos.
As duas frentes de Dark Horse no STF
O financiamento do filme é investigado em dois procedimentos. Dino relata a frente de dinheiro público, emendas e contratos. Foi nesse inquérito que autorizou a Operação Make Up e, em agosto, permitiu à PF acessar elementos reunidos pela Polícia Civil de São Paulo sobre o contrato de wi-fi.
André Mendonça conduz a frente originada no caso Banco Master. Ela apura as remessas ordenadas por Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund após pedidos de Flávio Bolsonaro. Na quarta-feira (9), Mendonça homologou a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, apontado como operador de Vorcaro e responsável por mais de US$ 12 milhões enviados ao fundo.
A Investigação já havia mostrado que a Entre Investimentos e Participações, de Freixo, recebeu recursos do Master e os repassou ao Havengate. A piauí acrescentou à cronologia uma sétima parcela, de US$ 1,6 milhão. Os valores de Vorcaro eram privados; a Make Up investiga recursos públicos. O ponto de encontro entre as duas frentes é o mesmo filme e a mesma produtora.
A PF pediu as buscas em 28 de agosto, antes de Mendonça retirar o sigilo, em 1º de setembro, do relatório sobre as mensagens enviadas por Vorcaro a um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A operação não nasceu, portanto, como reação pública à crise que se instalou depois da divulgação. Foi autorizada, porém, em meio à disputa entre ministros que culminou no afastamento do diretor-geral da PF por Mendonça, na suspensão da medida por Dino e na intervenção de Edson Fachin.
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