IstoÉ o fim: revista saiu do ar e ninguém percebeu
Sem comunicado ao leitor, os portais da IstoÉ pararam de atualizar. O que parecia o apagamento discreto de uma marca com quase meio século de história tinha uma explicação mais concreta: greve.
O último post da RevistaISTOE no X foi publicado às 18h34 do dia 11 de maio de 2026 — uma matéria sobre bolsonaristas que contrariavam alertas da Anvisa sobre a Ypê. O portal istoe.com.br parou de atualizar a home nessa mesma data. A IstoÉ Dinheiro publicou sua última matéria às 14h43 do mesmo dia e na madrugada de 14 de maio, o site istoedinheiro.com.br retornava erro para qualquer tentativa de acesso. O perfil da Revista IstoÉ no Facebook está inacessível.
Nenhum comunicado. Nenhuma nota da redação. Nenhuma cobertura da imprensa.
O que parecia uma saída silenciosa do ar era, na verdade, o sintoma mais visível de uma crise trabalhista e financeira. Jornalistas da IstoÉ Publicações — responsável por IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, IstoÉ Saúde, IstoÉ Mulher, IstoÉ Dinheiro Rural, Revista Menu, Revista Planeta e Motor Show — paralisaram a partir da meia-noite de 14 de maio, após assembleia aprovada no dia 11 e mantida no dia 13. A paralisação foi motivada por atraso no pagamento de salários, vale-alimentação, vale-transporte, férias e FGTS, segundo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP). A direção da empresa alegou bloqueio de contas.
E as contas estavam bloqueadas por uma razão bem específica: Antonio Carlos Freixo Júnior, dono da IstoÉ, é investigado pela Polícia Federal por operar como intermediário de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Em março de 2026, o Banco Central liquidou o conglomerado de pagamentos de Freixo Júnior. Seus bens foram bloqueados. As contas da IstoÉ Publicações, junto.
A direção da empresa prometeu apresentar uma solução até 15 de maio. Mas esta é uma promessa que eles não têm como cumprir.
Uma nova assembleia foi marcada para as 18h de quinta-feira para avaliar a manutenção da greve. No LinkedIn, jornalistas da empresa já começavam a atualizar os currículos.
A greve explica o silêncio editorial. O colapso financeiro ajuda a explicar o resto.
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Quase 50 anos de história
A IstoÉ foi fundada em maio de 1976 por Mino Carta, que havia deixado a Veja após conflito com a direção da Editora Abril. O projeto nasceu dentro da Editora Três, de Adolfo Bloch, e consolidou-se ao longo dos anos 1980 como uma das três maiores revistas semanais do Brasil — ao lado de Veja e Época —, com cobertura de fôlego da redemocratização, da Constituinte de 1987 e do impeachment de Collor em 1992.
No apogeu, nos anos 2000, a Editora Três operava um portfólio que incluía IstoÉ Dinheiro (1997), IstoÉ Gente (2000), Motor Show, Planeta e Menu, com tiragem semanal superior a 350 mil exemplares. A queda veio com a fragmentação digital e o colapso da publicidade impressa. A Editora Três entrou em recuperação judicial em 2019. A última edição impressa da IstoÉ circulou em 31 de janeiro de 2025 — três dias antes de o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho decretar a falência da Editora Três, em 3 de fevereiro de 2025, por descumprimento reiterado do plano de recuperação judicial.
Como a IstoÉ foi para as mãos do Grupo Entre
Em julho de 2022, em leilão judicial da recuperação da Editora Três, a IstoÉ Publicações Ltda. arrematou todos os direitos digitais das marcas do grupo por R$ 15 milhões. A empresa vencedora pertencia ao Grupo Entre, fundado em 2016 por Antonio Carlos Freixo Júnior, empresário mineiro conhecido nos bastidores financeiros simplesmente como “Mineiro”.
O Grupo Entre era, na descrição do próprio site oficial, um ecossistema de aproximadamente 26 empresas focadas em meios de pagamento, crédito e tecnologia: EntrePay, Acqio, WMoney, Leads Securitizadora, Pmovil, OCTA e outras. Com a aquisição da IstoÉ, Freixo Júnior adicionava ao portfólio um ativo inusitado para um grupo financeiro: um dos mais tradicionais veículos do jornalismo brasileiro.
A redação foi reconstruída. Em setembro de 2025, a IstoÉ foi relançada como revista digital semanal sob direção editorial de Lena Castellón. A IstoÉ Dinheiro foi relançada na sequência com Érica Polo como editora. O CEO editorial nomeado foi Daniel Hessel Teich, ex-Exame. A última edição publicada foi a de número 35, de 8 de maio de 2026 — com a manchete “O Elo Político”, sobre o cerco da Polícia Federal ao senador Ciro Nogueira por suas conexões com Daniel Vorcaro. Era a investigação sobre o próprio controlador. O leitor não sabia disso.
A conexão com Vorcaro
O que não estava visível ao público durante o relançamento é que a holding que reerguia a IstoÉ operava em conexão direta com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em 4 de março de 2026, na 3ª fase da Operação Compliance Zero, acusado de causar um rombo de dezenas de bilhões ao sistema financeiro.
Freixo Júnior era administrador da Entre Investimentos e Participações — a empresa que, segundo declaração de Imposto de Renda do Banco Master enviada à CPI do Crime Organizado, recebeu R$ 2,3 milhões do banco em 2025. O Intercept Brasil reportou, em 13 de maio de 2026, que esses recursos teriam sido usados para repassar valores ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas controlado por Paulo Calixto — advogado de Eduardo Bolsonaro — ligado ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Segundo o Intercept, o contrato de financiamento negociado pelo senador Flávio Bolsonaro com Vorcaro totalizava R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido pagos. Flávio confirmou ter cobrado Vorcaro por parcelas do projeto, mas negou ter recebido qualquer vantagem. A produtora Go Up Entertainment negou categoricamente ter recebido “um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário”, acrescentando que “conversas e tratativas com potenciais apoiadores não significam investimento efetivado”. O próprio Intercept reconheceu, no corpo da reportagem, não ter comprovação de que os recursos chegaram efetivamente à produção.
Freixo Júnior também recebeu diretamente R$ 2,329 milhões do próprio Banco Master em 2025, declarados na folha fiscal do banco entregue à CPI do Crime Organizado no Senado.
A relação entre Freixo Júnior e Vorcaro não era novidade para os reguladores. Desde 2020, os dois respondiam ao Processo Administrativo Sancionador CVM nº 19957.007976/2020-94, instaurado para apurar operações fraudulentas com cotas do Brazil Realty Fundo de Investimento Imobiliário, realizadas entre outubro de 2018 e março de 2020. O esquema identificado pela Superintendência de Registro de Valores Mobiliários da CVM era preciso:
Ativos superfaturados com laudos sem assinatura foram usados para subscrever cotas de um fundo imobiliário;
As cotas foram depois vendidas para outros fundos, convertendo os bens em dinheiro;
E a Entre Investimentos de Freixo Júnior atuou como câmara de liquidação informal de toda a operação, realizando 177 negociações e movimentando R$ 709 milhões em cotas para garantir que os subscritores originais conseguissem sair das posições. Sem a Entre, a fraude não se fecharia.
A CVM calculou um prejuízo individualizado de R$ 94,1 milhões aos investidores — entre os prejudicados havia cotistas de Regimes Próprios de Previdência Social, fundos de aposentadoria de servidores públicos. Em dezembro de 2024, o Colegiado aceitou o Termo de Compromisso. Os cinco acusados pagaram em conjunto R$ 21,2 milhões — 22,5% do prejuízo estimado pela área técnica da própria autarquia, sem ressarcimento direto aos fundos lesados. Banco Master pagou R$ 5,9 milhões; Viking Participações, de Vorcaro, R$ 4,9 milhões; Vorcaro pessoalmente, R$ 2,97 milhões; Entre Investimentos, R$ 4,9 milhões; e Freixo Júnior, R$ 2,47 milhões.
O acordo foi fechado em dezembro de 2024 — menos de um ano antes da prisão de Vorcaro e da liquidação do Banco Master. Na prática, o regulador do mercado de capitais sacramentava, por via oblíqua, que a Entre Investimentos e o Banco Master operavam como estrutura integrada.
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A liquidação e o colapso em cascata
Em 27 de março de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do conglomerado EntrePay — atingindo a EntrePay Instituição de Pagamento S.A., a Acqio e a Octa — após identificar “comprometimento da situação econômico-financeira” e “infringência às normas que disciplinam sua atividade”. O liquidante nomeado foi Cassio Haig Vartanian. Ativos bloqueados, operações encerradas, credores habilitados para receber na ordem legal. Os bens de Freixo Júnior foram imediatamente bloqueados.
Nesse mesmo dia, a própria IstoÉ republicou uma reportagem do Estadão que revelava que Vorcaro era “suspeito de ser dono oculto da EntrePay” e que Freixo Júnior “era visto nos bastidores como um operador que usava a infraestrutura do conglomerado em benefício de Vorcaro”. Um veículo publicando sobre seu próprio controlador — sem dizer ao leitor que era seu próprio controlador.
A Entre Investimentos e Participações Ltda. (CNPJ 30.037.396/0001-02) — a sócia única da IstoÉ Publicações — aparece com situação cadastral “Ativa” na Receita Federal. Formalmente, ela não está em falência nem em liquidação. Mas é a holding-mãe de todo o ecossistema, e com o congelamento dos ativos de Freixo Júnior e a liquidação das operadoras de pagamento, ela opera na prática como uma casca sem liquidez.
O portal mantinha no rodapé uma nota que tentava criar distância da Editora Três falida: “A IstoÉ Publicações Ltda. é um portal digital independente e sem vinculação editorial e societária com a Editora Três Comércio de Publicações Ltda.” O Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica conta uma história diferente. O QSA da IstoÉ Publicações Ltda. — CNPJ 48.669.641/0001-60 —, extraído diretamente da base da Receita Federal, mostra que a empresa tem um único sócio: a Entre Investimentos e Participações Ltda. de Freixo Júnior.
O mesmo Freixo Júnior figura também como administrador direto da IstoÉ Publicações. O capital social registrado é de R$ 15 milhões — o valor exato pago no leilão judicial da Editora Três. A nota, ao esclarecer o que a IstoÉ não era, deixava no escuro o que ela era.
Os problemas já vinham de antes. O NeoFeed documentou em março que a EntrePay já atrasava repasses a lojistas, alterava FIDCs e estava sob investigação da PF. O ReclameAqui já acumulava centenas reclamações sobre a EntrePay, com nota 4,6/10 e 54 reclamações sem resposta. O colapso operacional do grupo precedia a liquidação formal por meses. Com a liquidação, fornecedores de infraestrutura digital — hospedagem, CDN, sistemas de CMS — pararam de receber. Contratos rescindidos ou simplesmente vencidos sem renovação.
O fim
A greve é um instrumento trabalhista projetado para pressionar um empregador que tem caixa mas se recusa a pagar. Aqui o problema é estruturalmente diferente: a empresa não está se recusando — está impossibilitada. O bloqueio judicial dos ativos de Freixo Júnior não é uma decisão gerencial que uma assembleia sindical pode reverter. É uma ordem judicial decorrente de uma liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.
O que a greve faz na prática é criar registro formal da inadimplência trabalhista. Cada dia de paralisação documentado pelo SJSP é evidência para a reclamação trabalhista coletiva que virá. Os jornalistas não estão parando para forçar pagamento — estão construindo o processo que vai habilitar o crédito trabalhista deles na fila de credores quando a IstoÉ Publicações entrar em recuperação judicial ou falência. Nessa fila, créditos trabalhistas têm preferência sobre quirografários — mas ficam atrás de créditos com garantia real e das custas do processo. Na prática, em falências como a da Editora Três, trabalhadores esperam anos e recebem fração do que é devido.
Não é a primeira vez. Em fevereiro e novembro de 2024, jornalistas da Editora Três fizeram greve pelos mesmos motivos — salários atrasados, FGTS não depositado, promessas não cumpridas. Em 2024, o presidente do SJSP, Thiago Tanji, descreveu a situação: “Já temos casos de necessidade alimentar entre os trabalhadores. Muitos funcionários já não têm como se deslocar ao trabalho, estão com aluguéis atrasados e sob risco de punição judicial por não pagamento de pensão alimentícia.” A Editora Três fechou assim mesmo. A IstoÉ Publicações comprou as marcas no leilão dessa falência. Agora repete o roteiro.
A única diferença é que a Editora Três ao menos pediu recuperação judicial formalmente. A IstoÉ Publicações simplesmente bloqueou os servidores — sem aviso aos leitores, sem nota aos jornalistas que trabalhavam lá, sem comunicado público de qualquer espécie.





Esse tipo de notícia a gente não lê na Grande Mídia. Parabéns.