Nos últimos dias, A Investigação encontrou dezenas de publicações no X que usam o assassinato do ativista americano Charlie Kirk para defender ataques a políticos de direita. Flávio Bolsonaro é o alvo mais frequente. Nosso levantamento também reúne mensagens sobre Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Tarcísio de Freitas, Eduarda Campopiano e Douglas Ruas. Parte das mensagens pede atiradores; outras tratam eventos de campanha como oportunidades para atacar mais de uma pessoa.
As expressões “kirkificar” e “ir de Kirk” circulam em posts, respostas, grupos de WhatsApp e cartazes. Há perfis que anunciam voto no PT, usam o número 13 ou se identificam com a esquerda. O levantamento preservou capturas e cópias arquivadas, além de examinar as conversas e as publicações às quais os autores respondiam.
Kirk foi assassinado a tiros nos Estados Unidos em 10 de setembro de 2025 e completaria 33 anos em 14 de outubro de 2026. A referência soma-se a um histórico de atentados contra líderes da direita: Jair Bolsonaro foi esfaqueado em 2018 por Adélio Bispo, ex-filiado ao PSOL, e Donald Trump foi atingido por um tiro durante um comício em 2024.
O termo “kirkificar” foi inicialmente usado em montagens de rostos com inteligência artificial, trocando o rosto de um alvo pelo de Kirk. Nesta quarta-feira, Guilherme Colombo, deputado eleito por SC e marido da deputada Julia Zanatta, denunciou que fizeram esta montagem com o rosto de Julia em uma manifestação petista em Florianópolis. “Não podemos normalizar o ódio e a violência contra quem pensa diferente!”, escreveu.
Nas mensagens examinadas por nossa reportagem, o termo funciona como um código velado para matar, vindo acompanhado de referências a mira, balas, revólver e execução de adversários. Esse mecanismo é conhecido como dog whistle, ou “apito de cachorro”, em que uma mensagem tem um significado reconhecido apenas por determinado grupo. A mesma esquerda que passou anos criando teorias da conspiração com este conceito, associando copo de leite e gesto de OK com nazismo, utiliza o mesmo expediente para incitar a morte de oponentes.
A Investigação já havia documentado, em 6 de outubro, mensagens de WhatsApp que perguntavam por atiradores capazes de fazer Flávio, Nikolas, Pavanato e Donald Trump “irem de Kirk”. Campopiano foi alvo de pedidos para ser “kirkificada” e levar um tiro em praça pública. Em 13 de outubro, a referência apareceu em conversas sobre a visita de Flávio a Porto Alegre. Em capturas, participantes pedem revólver, oferecem álibis e propõem criar um grupo no WhatsApp para organizar a ideia.
Pedidos públicos para que terceiros cometam assassinatos podem configurar incitação ao crime, prevista no artigo 286 do Código Penal, com pena de três a seis meses de detenção ou multa.
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Pedidos de atirador e ataques coletivos
O uso violento da expressão antecede o segundo turno. Em 4 de janeiro de 2026, a conta @FakerKenzie escreveu, em uma publicação que mencionava Nikolas Ferreira: “Kirkficação tem que vir pra esse maluco mas no sentido de meter bala msm”.
Em 4 de outubro, depois da apuração do primeiro turno, @garfielwds perguntou quem seria a pessoa responsável por “kirkificar o flavio bolsonaro ate o segundo turno”. O autor chamou o eventual responsável de “lenda”. Em 10 de outubro, @cigarrosmofados publicou: “Não é possível que não tenha UM esquerdista bom de mira pra kirkificar Flávio Bolsonaro”.

Em 13 de outubro, @profanoeu escreveu: “vamos kirkificar a direita brasileira, bala no alvo bala no problema”. No dia seguinte, @felgap_ afirmou: “penso diariamente em me sacrificar e kirkificar o PL todo”.
A referência chegou a uma discussão sobre a proposta de fim da escala 6 por 1. Em 14 de outubro, @VeigaaR2 escreveu que estava anotando quem votasse contra para “preparar a kirkficação”.
Outros posts dirigem a mesma expressão a alvos específicos. Uma publicação sobre Nikolas Ferreira afirmou que ele precisava “ir de Kirk antes de se candidatar a presidente”. Contra Pavanato, outro texto diz: “Torço todo dia pra alguém kirkificar o Pavanato”. Tarcísio foi citado em uma mensagem sobre a disputa eleitoral: “vai ter q kirkficar o tarcisio”.
Cartazes e eventos de campanha
Uma fotografia publicada no X em 14 de outubro mostra uma pessoa segurando um cartaz com o rosto de Kirk e um alvo desenhado na região do pescoço. O texto diz: “QUANDO VIR UM KIRK MIRE CERTO!”. A imagem, postada por @OtaldoBlanka, registrava cerca de 29 mil visualizações na captura preservada.
O anúncio do “Bloquinho do 22”, marcado para 18 de outubro na Avenida Paulista, provocou várias mensagens sobre atacar os quatro políticos retratados no cartaz. @mdnhgts escreveu: “temos uma chance de kirkficar 4 de uma vez”. Outra conta publicou: “Tem que kirkificar os 4 de uma vez só”. @rigbybolinha acrescentou: “NÓS VAMOS KIRKFICAR O BLOQUINHO DO 22. KIRKFIQUEM.”
Na mesma conversa, duas contas se ofereceram para atacar políticos específicos. @vivsccp disse que, como mineira, se sentia no dever de “kirkficar” Nikolas. @inheightplayer respondeu que, por ser de Sorocaba, poderia atacar Pavanato.
Em 12 de outubro, uma publicação que anunciava uma visita de Nikolas a Manaus recebeu o pedido de alguém para “kirkficar ele”. Uma resposta perguntou por um “sniper em Manaus”. Outras mensagens da cadeia falavam em atirar no deputado e em Flávio, pediam uma arma e ofereciam aprender a atirar.
Há registros semelhantes sobre outros estados. Em 7 de outubro, @ttdotteu mencionou uma passagem de Flávio e Douglas Ruas por São Gonçalo e desejou que alguém os atacasse. Em 14 de outubro, @mavicasz respondeu a um post sobre um evento na orla de Camburi, em Vitória, com Flávio, Nikolas e outros políticos: “temos q kirkficar um pelo menos”.
O alvo na testa e o perfil fora do ar
Em 13 de outubro, a conta @_GFeitoza publicou: “quando vamos começar a Kirkificar essa galera?”. O perfil usava o nome “Militriz” (Militante + Meretriz) e anunciava voto no PT no segundo turno.
A mensagem veio acompanhada da imagem de um papel com uma caricatura associada ao número 22, um alvo vermelho na testa e a expressão “INIMIGO DO BRASIL” repetida. A captura foi preservada no levantamento antes de a conta sair do ar.
Identificamos o autor como Guilherme Feitoza e publicamos uma resposta informando que o conteúdo já estava salvo. Após a repercussão, a conta no X deixou de estar acessível.
O nome “Militriz” não impediu a identificação: o autor manteve rastros em outras redes. No Instagram, um perfil com seu nome se apresentava como auxiliar técnico de educação na Prefeitura de São Paulo. Preservamos a captura dessa apresentação e as cópias arquivadas da mensagem no X.
Revólver e álibis para atentado Porto Alegre
Clarke de Souza divulgou as capturas sobre Porto Alegre na noite de 13 de outubro. Disse ter recebido por mensagem privada uma denúncia de que perfis “aparentemente ligados à esquerda” estariam planejando um atentado. No mesmo texto, pediu apuração urgente e o acionamento das autoridades caso surgissem indícios concretos de ameaça.
A conversa começou com uma publicação de @etmaconhaa sobre a presença de Flávio na cidade no dia seguinte. A conta @akki_kii republicou a mensagem e anunciou ter “uma ideia”. Quando outro perfil escreveu “o incidente da facada parte 2”, respondeu: “facada nada, hora de kirkficar ele”. Em outra resposta, acrescentou que só precisava de “um louco com coragem”.
Uma captura também mostra a resposta de outro perfil, que usava o nome Guilherme e o identificador @guytrindade: “Isso envolve uma sniper?”. A mensagem foi publicada em 13 de outubro, às 22h51, em resposta à proposta de @akki_kii.
Uma conta exibida como “aripiprazol 10mg” escreveu: “Eu não tenho nada a perder, me deem um revólver, data e hora que eu não erro”. Outros participantes ofereceram álibi, prometeram pagar a fiança e sugeriram alegar que a arma deveria estar descarregada.
O perfil Desmascara News Brasil reuniu outras respostas à publicação sobre a visita. Entre elas estão pedidos para preparar armas e encontrar alguém sem nada a perder. Uma conta identificada como Lizzy escreveu que era hora de “abrir a cabeça de direitista”. Em outra resposta, @gatosbarrigudos anexou uma imagem de Kirk durante um evento e escreveu: “precisamos de alguém sem nada a perder”.
A conversa de @akki_kii foi divulgada pelo perfil Byanu, no X. A captura dessa divulgação mostra um aviso da plataforma: “Este post pertence a uma conta que não existe mais”. A mensagem sobre “kirkficar” Flávio foi preservada em uma cópia arquivada.




Ao longo da apuração, parte dos perfis apagou publicações ou deixou de estar acessível depois que as mensagens foram expostas. As capturas e os arquivos preservam o conteúdo que deixou de estar acessível.
Houve também pedidos para criar um grupo no WhatsApp e “organizar isso”. As mensagens foram reproduzidas em oito capturas, entre o post principal de Clarke e uma publicação complementar. A agenda oficial de Flávio previa compromissos em Porto Alegre em 14 de outubro. As imagens registram propostas de ataque e organização, mas não confirmam a criação do grupo ou preparativos para um atentado.
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Sugestão prática (não substitui orientação oficial ou jurídica)
Se perceber risco imediato, priorize a segurança e acione as autoridades.
Documente o material: capturas de tela com data, URL e o contexto em que o termo aparece como código velado para matar, acompanhado de referências a mira, balas, revólver ou execução de adversários, incluindo a origem/histórico do autor.
Use as ferramentas de denúncia da própria plataforma.
Com a documentação organizada, busque a Delegacia (preferencialmente especializada em crimes cibernéticos, se houver) para registrar a ocorrência.
Sempre a esquerda do amor!