Em 24 de novembro de 2024, Călin Georgescu venceu o primeiro turno da eleição presidencial da Romênia. Pouco mais de uma semana depois, em 2 de dezembro, a Corte Constitucional validou o resultado. Em 4 de dezembro, o então presidente Klaus Iohannis tornou públicos documentos dos serviços de inteligência sobre possível interferência estrangeira. Dois dias depois, a mesma Corte anulou toda a eleição.
Georgescu deveria enfrentar Elena Lasconi no segundo turno. Não enfrentou. Quando a eleição foi refeita, em 2025, tentou registrar novamente sua candidatura e foi impedido de concorrer. A nova disputa terminou com a eleição de Nicușor Dan, centrista pró-União Europeia e defensor da permanência da Romênia no eixo da UE e da OTAN. A anulação continua cercada por controvérsias sobre a extensão da influência russa, a atribuição das operações digitais a Moscou e a relação entre as irregularidades apontadas e o resultado da votação.
Quase dois anos depois, parte da discussão que antecedeu a anulação romena já aparece na eleição brasileira de 2026. Em 17 de setembro, Eduardo Bolsonaro disse ter alertado autoridades americanas para o risco, em sua avaliação, de o STF anular uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Citou como precedente a anulação romena, após alegações de interferência russa. Não apresentou evidências de que o Brasil seguirá o mesmo caminho.
Alexandre de Moraes afirmou neste mês que um relatório da Polícia Federal sobre suas relações com Daniel Vorcaro teria sido produzido com auxílio de agentes externos, “provavelmente estrangeiros”, e classificou o episódio como uma “clara tentativa de interferência externa nas eleições brasileiras de 2026”. O ministro não identificou publicamente qual país, órgão ou autoridade estaria por trás da suposta operação.
Na mesma crise, Flávio Dino vinculou o julgamento às eleições e às pressões vindas dos Estados Unidos. Ao defender a interrupção da discussão, citou as ameaças de novas sanções americanas contra ministros do Supremo e falou na necessidade de impedir “pressões externas”. Pouco depois, ao justificar seu pedido de vista, advertiu: “A 15 dias de uma eleição, o tribunal se expõe a isto.”
O próprio Dino foi acionado pelo PT nesta semana dentro da ADPF 1.178, ação que ele já relata. O processo foi ajuizado originalmente pelo Instituto Brasileiro de Mineração para contestar a atuação de municípios brasileiros em processos de indenização na Justiça inglesa relacionados ao desastre de Mariana. Agora, a campanha de Lula quer usar o mesmo processo para investigar uma suposta operação estrangeira em favor de Flávio Bolsonaro.
A petição cita suspeitas envolvendo a americana Rockbridge Network, conteúdos do Brasil Paralelo e do Estúdio Quinto Elemento disponibilizados na Academia da Direita e publicações pagas de perfis no X sobre o desempenho de Flávio na Polymarket. O PT pediu à Polícia Federal a abertura de investigação, depoimentos e medidas de busca e apreensão contra o comitê de campanha e a sede nacional do PL. As suspeitas de financiamento estrangeiro ainda não foram demonstradas publicamente.
O PT não se limitou ao Supremo. Também acionou o TSE contra Flávio e Eduardo Bolsonaro por abuso de poder político, econômico e dos meios de comunicação, alegando articulação com o governo Donald Trump para interferir na eleição. Além da inelegibilidade dos dois, a legenda pediu a cassação dos registros de Flávio e de seu candidato a vice.
A ofensiva ocorre depois que a Abin produziu um relatório reservado sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” e classificou como crítico o risco de escalada da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil. O documento foi encaminhado ao Palácio do Planalto, ao TSE e ao Ministério da Justiça. O governo também passou a monitorar quatro frentes que considera possíveis formas de influência americana: pressão política direta, impulsionamento de perfis, suspeitas de financiamento e contatos com influenciadores brasileiros.
Lula incorporou a interferência estrangeira ao discurso de campanha. Na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, afirmou que alguns candidatos se alinham a interesses estrangeiros contrários aos do país e disse que o Brasil não permitirá que “inimigos da democracia, internos ou externos” atentem contra a vontade popular.
O tema tampouco surgiu em 2026. Quando presidia o TSE, Luís Roberto Barroso já advertia sobre a possibilidade de ingerência estrangeira nas eleições por meio das redes sociais. Em 2021, ao ser questionado sobre manipulação eleitoral por plataformas digitais, citou o caso americano de 2016 e afirmou: “Nos Estados Unidos, ficou comprovada a interferência estrangeira a favor do presidente Trump. Pode acontecer em qualquer lugar do mundo.”
Foi nesse contexto que entrevistei Stéphane Luçon, jornalista francês radicado há mais de duas décadas na Romênia. Nos conhecemos no Westminster Free Speech Forum, em Londres, encontro organizado pelo jornalista americano Michael Shellenberger. Enquanto eu vinha investigando no Brasil o Twitter Files Brazil, a série Vaza Toga e a expansão de estruturas de monitoramento político dentro do Judiciário, Luçon passou a reconstruir o que ocorreu nos bastidores da eleição romena e o sistema europeu que reúne plataformas, reguladores, fact-checkers, organizações privadas e instituições da União Europeia no combate à desinformação.
A conversa se transformou numa entrevista dupla. Primeiro, tentei entender com Luçon como uma eleição já validada chegou a ser anulada quatro dias depois, quanto da alegada interferência russa havia sido efetivamente demonstrado e qual foi o papel do Rapid Response System, mecanismo europeu usado para acelerar a sinalização de conteúdos durante períodos eleitorais. Depois, ele me entrevistou sobre o Brasil e sobre as estruturas que investigamos desde o Twitter Files Brazil.
Os dois casos são institucionalmente diferentes. A Romênia já anulou uma eleição; o Brasil ainda vai votar em 4 de outubro. Mas a interferência externa já deixou de ser uma hipótese distante: entrou nos relatórios da inteligência, nas manifestações de ministros do Supremo, nas ações judiciais da campanha governista e no próprio discurso eleitoral de Lula.
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Da interferência à atribuição
A primeira objeção de Luçon é à narrativa segundo a qual Georgescu teria surgido do nada. O salto de um candidato tratado como irrelevante nas pesquisas para o primeiro lugar ajudou, segundo ele, a sustentar a ideia de que o resultado seria inexplicável sem uma operação externa.
Georgescu, porém, já circulava havia anos na política romena e tinha sido cogitado para o cargo de primeiro-ministro. Luçon lembrou que o ex-presidente Traian Băsescu, um dos políticos mais associados à integração da Romênia à OTAN, declarou posteriormente que Georgescu não era um “fantoche russo”. Duas semanas antes da eleição, disse Luçon, as buscas por Georgescu no Google Trends já superavam as dos principais adversários.
Também houve sinais de coordenação política digital em torno da candidatura. O Digital Forensic Research Lab, ligado ao Atlantic Council, identificou grupos no Telegram que distribuíam vídeos prontos, instruções de publicação e estratégias para impulsionar Georgescu no TikTok. O próprio relatório ressalvou que coordenação política não é, por si só, ilegal e que outra investigação seria necessária para estabelecer a extensão de uma eventual influência russa.
A decisão de 6 de dezembro da Corte Constitucional apontou manipulação do eleitorado, desequilíbrio entre candidatos, uso não transparente de tecnologias digitais e financiamento não declarado. Ela não atribuiu expressamente a campanha de Georgescu ao governo russo. Essa diferença entre o fundamento escrito da anulação e a atribuição política feita depois é central para a apuração de Luçon.
“Os romenos ainda estão esperando por provas sólidas do que exatamente aconteceu, por provas sólidas do envolvimento russo nisso. Não há atribuição formal porque as provas reais estão faltando”, disse Luçon.
Em artigo posterior, Luçon voltou ao tema da atribuição e relatou ter sido incluído numa lista intitulada “Quinta Coluna”, mantida por um grupo de combatentes romenos na Ucrânia. Para ele, o episódio ilustra o risco de tratar críticos da narrativa oficial como aliados de Moscou antes de examinar suas evidências. A existência da lista é um episódio distinto da investigação sobre a eleição e não demonstra, por si, como se formou o voto de 2024.
Luçon considera exagerada a imagem de uma população romena facilmente conduzida por Moscou. Uma pesquisa realizada em dezembro de 2024 mostrou que 87,5% dos entrevistados consideravam que a Romênia deveria se orientar para o Ocidente — UE, Estados Unidos e OTAN — enquanto 4,1% preferiam o eixo Rússia-China. Para ele, a desconfiança em relação a Moscou tem raízes na experiência do país sob influência soviética.
O ponto não é descartar a possibilidade de atuação russa, mas separar fenômenos diferentes: propaganda russa, uma campanha coordenada, uma operação atribuível ao Estado russo e uma operação capaz de alterar o resultado eleitoral. No caso romeno, Luçon sustenta que esses elos foram tratados como partes de uma mesma explicação antes de a cadeia completa estar demonstrada.
De uma conta ligada a Dugin ao dinheiro do PNL
Um episódio ocorrido entre os dois turnos mostra como a atribuição digital podia ser mais complexa do que parecia. Em 2 de dezembro de 2024, a conta @Agdchan no X, identificada com o nome e a fotografia de Aleksandr Dugin, publicou que “a Romênia será parte da Rússia”. A mensagem provocou reação do Ministério das Relações Exteriores romeno e foi inicialmente reproduzida como uma declaração do ideólogo russo.
Pouco depois, pesquisadores de OSINT contestaram a atribuição pessoal da conta a Dugin. Segundo eles, o perfil seria operado por um brasileiro identificado como Antonio Andreas da Silva Pires. Isso, porém, não encerra a relação entre @Agdchan e o filósofo russo. Em uma entrevista ao canal Estúdio 5º Elemento, o próprio Dugin aparece identificado na tela com a arroba @Agdchan. Canais ligados a ele também continuaram associando esse nome à sua estrutura de comunicação.
Os registros sugerem uma associação de @Agdchan ao entorno de Dugin, mas não permitem determinar quem operava pessoalmente a conta do X quando a mensagem sobre a Romênia foi publicada. Por causa da entrevista com Dugin, integrantes do Estúdio 5º Elemento passaram a ser chamados de “duginistas” por adversários. Agora, o mesmo canal aparece em uma ofensiva do PT sobre suposta interferência estrangeira nas eleições brasileiras de 2026, desta vez dentro de acusações de atuação alinhada ao campo beneficiado pelo governo Trump. O PT cita conteúdos do Quinto Elemento disponibilizados na Academia da Direita, mas isso, isoladamente, não demonstra financiamento ou comando estrangeiro.
Outro caso envolveu uma campanha no TikTok associada à ascensão de Georgescu. Segundo apuração do Snoop, a campanha que deu origem à #EchilibrușiVerticalitate havia sido financiada pelo Partido Nacional Liberal, o PNL, uma das principais legendas do establishment romeno. Cerca de 130 influenciadores participaram da ação, executada pela Kensington Communication. A empresa afirmou que a campanha original não tinha como objetivo promover Georgescu e que as hashtags e os comentários favoráveis a ele não integravam o material que havia encomendado. A origem do dinheiro, portanto, esclarece uma parte da campanha, mas não explica sozinha quem a adaptou nem afasta a hipótese de outras operações digitais.
“Se você não consegue fazer a atribuição, talvez não seja a Rússia. Talvez sejam os seus próprios caras. [...] Você precisa de atribuição. Precisa saber quem fez aquilo”, disse Luçon.
O RRS e a caixa-preta da eleição
Ao mesmo tempo em que os serviços de inteligência examinavam a campanha de Georgescu, funcionava outro sistema voltado à integridade eleitoral. O Rapid Response System, ou RRS, permite que organizações participantes e fact-checkers sinalizem rapidamente às plataformas conteúdos, contas e tendências considerados problemáticos durante períodos eleitorais.
O mecanismo não dá a uma ONG poder formal para ordenar ao TikTok ou à Meta a retirada de uma publicação. A decisão continua sendo da plataforma. A diferença está no canal privilegiado e acelerado criado especificamente para períodos eleitorais.
Luçon passou a investigar quem tinha acesso ao RRS, o que era encaminhado às plataformas e por que o público não podia auditar essas decisões enquanto a eleição acontecia.
“O Rapid Response System poderia ser uma ferramenta se houvesse transparência. Mas, na prática, você não sabe o que eles estão sinalizando”, afirmou Luçon.
Parte dessa informação só apareceu em 2026, depois que a Comissão Judiciária da Câmara dos Estados Unidos intimou plataformas digitais. O relatório da comissão afirma que a organização romena Funky Citizens sinalizou pelo menos 334 vídeos no TikTok em novembro e dezembro de 2024. Ao menos 153 foram removidos globalmente por violações das regras da plataforma, enquanto outros sofreram restrições geográficas. Segundo os documentos obtidos, representantes da Comissão Europeia eram copiados nas solicitações.
Luçon encontrou nesse material uma sinalização feita em 3 de dezembro, depois da validação do primeiro turno e três dias antes da anulação. O motivo registrado era “Political Propaganda for Călin Georgescu”. Ele publicou o documento no Francezul.
A classificação não dizia que o conteúdo era falso, não o atribuía à inteligência russa nem apontava manipulação por inteligência artificial. O motivo registrado era propaganda política em favor de um dos candidatos que ainda disputavam legalmente a Presidência.
Bruxelas também atuava sobre o ambiente digital. Em 29 de novembro, a Comissão Europeia pediu informações ao TikTok sobre manipulação e exploração automatizada da plataforma. Em 5 de dezembro, um dia antes da anulação, ordenou ao TikTok que preservasse dados relacionados à eleição. No dia 6, o European Board for Digital Services reuniu-se extraordinariamente para discutir a eleição romena.
A Comissão afirmou que suas medidas tratavam das obrigações das plataformas sob o DSA e não da validade jurídica da eleição. Não há documento conhecido que demonstre uma ordem de Bruxelas para a anulação. A cronologia mostra, porém, que a decisão da Corte ocorreu enquanto serviços de inteligência, instituições europeias, reguladores, plataformas e organizações privadas atuavam simultaneamente sobre o ambiente informacional do pleito.
Luçon chama atenção ainda para uma entrevista concedida mais de um ano antes da eleição por Anton Rog, chefe da área de segurança cibernética do serviço de inteligência romeno. Segundo Luçon, Rog explicou que, diante de uma campanha externa capaz de comprometer a “sinceridade” do voto, o serviço poderia obter autorização e bloquear rapidamente sites e contas.
“Podemos fazer isso em uma hora. Recebemos o mandato e fechamos tudo em uma hora: sites, contas, tudo”, recordou Luçon.
Se o aparato romeno dizia possuir instrumentos para interromper rapidamente uma operação estrangeira, permanece a pergunta sobre quais sinais foram identificados antes do primeiro turno, quais providências foram tomadas e por que a medida mais grave veio somente depois de conhecido o vencedor.
O precedente americano de 2016
A controvérsia romena tem um antecedente conhecido. Na eleição americana de 2016, a investigação de Robert Mueller documentou operações russas destinadas a interferir no processo eleitoral, incluindo campanhas nas redes sociais e invasões de sistemas ligados ao Partido Democrata.
Outra acusação, porém, era mais ampla: a de que a campanha de Donald Trump teria conspirado ou coordenado com Moscou nessas operações. O relatório Mueller não estabeleceu coordenação entre integrantes da campanha e o governo russo para interferir na eleição.
A expressão Russian collusion hoax foi adotada por Trump e seus aliados para descrever a tese de conluio. O ponto factual mais restrito é que a existência das operações russas não demonstrou participação consciente da campanha Trump nelas.
No caso romeno, Luçon identifica um problema parecido: atividade digital suspeita, propaganda alinhada a Moscou e redes coordenadas foram reunidas em uma explicação mais ampla antes de estarem demonstrados todos os elos entre origem, comando, participação consciente e efeito eleitoral.
Essa distinção interessa diretamente ao Brasil de 2026. Uma ação oficial do governo americano é facilmente atribuível aos Estados Unidos; demonstrar que brasileiros atuam sob comando americano exige outro conjunto de provas.
Quando a Romênia virou exemplo para outros países
Depois da repetição da eleição, Luçon passou a observar como autoridades romenas apresentavam a resposta dada à crise. Segundo ele, um integrante do Ministério do Interior afirmou que serviços de inteligência estrangeiros estudavam a experiência e mencionou o interesse de um colega tcheco.
“Ele achava que aquilo era uma coisa boa. Eu achei que era um pesadelo. Pensei: eles vão tentar fazer a mesma coisa em outros países”, disse Luçon.
Luçon passou então a acompanhar a eleição da República Tcheca ao lado da jornalista Cecilie Jilkova. Quando surgiram acusações sobre contas pró-Rússia no TikTok, os dois começaram a cobrar plataformas, fact-checkers e autoridades sobre a origem das contas e o funcionamento dos sistemas de sinalização ainda durante a campanha.
A investigação alcançou também a atuação francesa. Luçon reuniu no Francezul declarações, contatos diplomáticos e episódios envolvendo o governo Emmanuel Macron e passou a questionar por que determinadas ações estrangeiras eram classificadas como interferência quando atribuídas à Rússia, mas recebiam outra leitura quando partiam de governos ocidentais.
Na entrevista, citou manifestações de políticos franceses durante a repetição da eleição, uma visita do embaixador francês à Corte Constitucional pouco antes de Georgescu ser impedido de concorrer e as acusações posteriores de Pavel Durov sobre pressões francesas contra canais do Telegram. Esses episódios não demonstram, sozinhos, uma operação francesa para determinar o resultado, mas colocam a definição de “interferência estrangeira” sob o mesmo problema de atribuição que Luçon aponta no caso russo.
O problema brasileiro
Para o leitor de A Investigação, a capacidade das instituições brasileiras de intervir sobre plataformas e usuários não é novidade. O Twitter Files Brazil revelou ordens e pedidos enviados por autoridades às redes sociais; posteriormente, a Vaza Toga mostrou o uso de estruturas de combate à desinformação para produzir informações sobre cidadãos e alimentar procedimentos judiciais. Eu e Michael Shellenberger depusemos no Senado sobre parte desse material.
A novidade de 2026 está na acusação de interferência estrangeira. Moraes já classificou o relatório da Polícia Federal sobre ele como possível produto de agentes externos “provavelmente estrangeiros”, voltado, segundo o ministro, a interferir na eleição. A Abin também apontou risco de influência americana a um “nível de criticidade”, e a campanha de Lula acionou o ministro Flávio Dino no STF para investigar uma alegada articulação estrangeira em favor de Flávio Bolsonaro.
O argumento já alcança fatos bastante diferentes entre si: pressão diplomática dos Estados Unidos, possíveis novas sanções, contatos com influenciadores, suspeitas de financiamento externo, conteúdos hospedados em plataformas brasileiras e publicidade política nas redes. Algumas dessas ações são públicas e documentadas; outras são suspeitas que ainda precisam ser demonstradas.
No caso brasileiro, parte da atuação americana sequer precisa ser inferida. Em 2025, o governo dos Estados Unidos aplicou sanções Global Magnitsky contra Alexandre de Moraes e posteriormente as retirou. Se Washington voltar a adotá-las durante a campanha, haverá uma ação estrangeira pública e oficial.
Daí não decorre que todo brasileiro favorável às sanções integre uma operação americana. Um político apoiar uma decisão de Washington não demonstra que receba ordens do governo americano. Uma reportagem brasileira ser citada por autoridades estrangeiras não transforma seus autores em agentes externos. Influenciadores participarem de reuniões em uma embaixada ou compartilharem conteúdos produzidos nos Estados Unidos também não prova, sem elementos adicionais, comando, financiamento ou coordenação clandestina.
A comparação com a Romênia começa exatamente aí. No caso romeno, campanhas no TikTok, redes coordenadas, contas associadas a figuras russas e relatórios de inteligência foram reunidos antes da anulação; parte da atribuição continuou controversa depois dela. No Brasil, o mesmo tipo de linguagem já está sendo usado antes da votação.
“Se qualquer grupo de pessoas que se organiza junto passa a ser interferência, você pode alegar isso em qualquer ocasião”, afirmou Luçon.
A Comissão de Veneza, órgão consultivo do Conselho da Europa, examinou as regras gerais aplicáveis à anulação de eleições depois do caso romeno, sem julgar o acerto daquela decisão. Seu parecer diz que a medida deve ser excepcional e depender de irregularidades relevantes o suficiente para poder afetar o resultado, com garantias de um procedimento justo e objetivo.
A experiência romena não permite antecipar o desfecho brasileiro. Ela permite exigir, antes de qualquer consequência eleitoral, a demonstração dos mesmos elos que Luçon cobra na Romênia: quem comandou a operação, quem participou conscientemente, como ocorreu a coordenação e qual foi sua relevância concreta para o resultado.
A repercussão da entrevista
Em 25 de setembro de 2026, o YouTuber Ricardo Albuquerque Pinto, conhecido como Ancapsu, publicou um vídeo que ultrapassou 200 mil visualizações. Ao comentar minha entrevista com Luçon, contestou a comparação entre Romênia e Brasil e chamou o jornalista francês de “russete”. Afirmou que Georgescu era “um agente russo” e que a anulação romena se justificava por compra de votos e cooptação de mesários.
Na resposta que publiquei, também divulgada no X, critiquei a desqualificação de Luçon e a diferença no tratamento dado às duas alegações de interferência estrangeira. A entrevista não apresentava Georgescu como candidato isento de investigação nem negava a existência de campanhas coordenadas. Discutia o que as investigações conseguiram atribuir a agentes russos e os fundamentos usados para anular a eleição.
Luçon também se manifestou. “Pessoas muito belicosas em relação à guerra entre Ucrânia e Rússia, que passam o tempo procurando traidores atrás do teclado, tendem a atacar quem expõe a falta de provas de interferência russa por trás da votação de Georgescu”, escreveu. É uma crítica dele à forma como o debate sobre a guerra passou a influenciar a leitura do caso eleitoral.
Em um artigo sobre o tema, Luçon relatou ter sido incluído numa lista chamada “Quinta Coluna”, mantida por um grupo de combatentes romenos na Ucrânia. Segundo seu relato, a lista também reúne outros jornalistas e figuras políticas rotulados como adversários. O episódio ajuda a entender por que ele considera perigoso equiparar o questionamento das provas a uma colaboração com Moscou. A denúncia sobre a lista é distinta da apuração eleitoral e não resolve a controvérsia sobre a origem da campanha digital de Georgescu.
A decisão da Corte Constitucional tratou de financiamento não declarado, publicidade digital irregular e desigualdade de condições entre candidatos. Não afirmou que Georgescu era agente do governo russo nem apresentou a alegada compra de mesários como fundamento da anulação.





