Na última quinta-feira, 8 de outubro, a página de Eduardo Moreira, fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), começou a divulgar um anúncio pago sobre a disputa presidencial. No vídeo, Moreira dizia a quem tinha raiva do STF que Flávio Bolsonaro (PL) era “o último candidato que você pode votar”. O aviso de financiamento exibia o nome do ICL, enquanto o registro detalhado da Meta apontava Eduardo Moreira como pagador e beneficiário.
Entre 3 e 9 de outubro, as páginas do instituto, do ICL Notícias, de Moreira e da Revista Liberta gastaram mais de R$ 62 mil em publicidade na Meta, segundo o relatório semanal reunido por A Investigação. O total inclui anúncios de cursos e assinaturas. Após o primeiro turno, A Investigação identificou ao menos oito anúncios contra Flávio Bolsonaro nessas páginas.
A Lei das Eleições permite pagar para ampliar propaganda eleitoral apenas quando a contratação é feita pelos responsáveis autorizados da campanha e promove uma candidatura ou partido. A resolução do TSE proíbe expressamente o impulsionamento negativo. Empresas também não podem veicular propaganda eleitoral em seus sites e perfis, mesmo sem pagar.
O ICL reúne cursos, programas em vídeo e um portal de notícias. Apesar do nome, é operado por uma empresa com fins lucrativos. Um de seus sócios atua na comunicação do PT, e um diretor do instituto foi recrutado para a operação digital de Lula. A apuração encontrou ainda sindicatos que pagaram para divulgar mensagens contra Flávio, inclusive conteúdo do ICL Notícias.
Precisamos de você
Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
Fazemos isso de forma independente — e independência tem preço.
Dinheiro para ampliar os ataques
O anúncio com orientação de voto custou entre R$ 200 e R$ 299 e teve de 25 mil a 30 mil exibições, segundo os registros reunidos da Biblioteca de Anúncios da Meta, dona do Facebook e do Instagram. A biblioteca informa faixas de gasto e de alcance, não valores exatos.
Outros dois anúncios da página de Moreira prometiam desmascarar a “maior mentira” de Flávio e afirmavam que o candidato confirmou uma declaração do apresentador. O primeiro convocava a circulação do vídeo entre trabalhadores assalariados.
As três peças somam entre R$ 500 e cerca de R$ 800, com 90 mil a 105 mil exibições. O pagamento faz as mensagens chegarem além do público que as recebe espontaneamente. As exibições não correspondem a pessoas diferentes e um usuário pode ver o mesmo anúncio mais de uma vez.
O ICL Notícias também patrocinou uma publicação na qual Jones Manoel associava o voto em Flávio a um programa econômico que aumentaria a fome, a pobreza e o desemprego. Outra dizia que sua vitória concentraria poder na família Bolsonaro.
Uma peça de Moreira atribuiu a Flávio o desejo de fazer todos trabalharem 16 horas por dia. A discussão citada no levantamento partiu, porém, de Mauro Mendes (União Brasil), senador eleito por Mato Grosso. O próprio ICL Notícias identificou Mendes como autor das declarações sobre brasileiros que trabalham 12, 14 ou 16 horas por dia nos Estados Unidos.
O ICL e a comunicação petista
As páginas que divulgaram os anúncios aparecem associadas, no cadastro da Meta, ao CNPJ 36.328.207/0001-37. É o registro da Editora e Livraria Conhecimento Liberta Ltda., empresa identificada no site do ICL. O vínculo inclui as páginas do instituto, do ICL Notícias e de Eduardo Moreira, fundador do grupo.
No anúncio que orienta eleitores a rejeitar Flávio, o aviso ao público traz o nome Instituto Conhecimento Liberta. Os campos de pagador e beneficiário, por sua vez, identificam Moreira e seu site pessoal. Os registros ligam a publicidade ao fundador e ao ICL, mas não mostram de qual conta saiu o pagamento.
Entre 3 e 9 de outubro, as páginas do instituto, do ICL Notícias, de Moreira e da Revista Liberta somaram cerca de R$ 62 mil em publicidade na Meta, segundo o relatório semanal reunido pela reportagem. Esse valor inclui anúncios de cursos e assinaturas; não representa o gasto apenas com mensagens contra Flávio.
Um dos sócios administradores da empresa é Otávio Antunes. O PT o apresentou como estrategista de sua comunicação há mais de uma década. A Investigação já documentou essa ligação.
Há outro elo: Giácomo Degani, então diretor de Marketing e Comunicação do ICL, foi recrutado em junho para a operação digital de Lula, segundo o Metrópoles. Essas conexões mostram a circulação de profissionais entre o ICL e a comunicação petista. Os anúncios examinados, no entanto, não identificam a campanha de Lula como contratante ou financiadora.
Sindicatos também compram a divulgação
Um anúncio do Sindicato Químicos Unificados reproduzia conteúdo do ICL Notícias sobre a concentração de poder na família Bolsonaro. A Condsef e o Sindsep-DF também aparecem no levantamento como patrocinadores de mensagens contra Flávio. O uso do mesmo conteúdo não comprova que o ICL dirija ou financie os anúncios dessas entidades.
No domingo, 11, André Mendonça mandou a CUT retirar cinco publicações. Na decisão provisória, o ministro apontou sinais de propaganda eleitoral em um perfil institucional. Preservou, porém, o direito de a central sindical discutir políticas públicas e direitos trabalhistas.
A punição prevista no artigo 57-C é multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, ou o dobro do gasto quando esse cálculo superar o teto. Em 22 de setembro, o TSE confirmou uma multa de R$ 10 mil por anúncios eleitorais contra um adversário nas eleições municipais. O tribunal ressaltou que a proibição vale mesmo quando a crítica se baseia em fatos.
O próprio ICL Notícias noticiou, em 12 de outubro, o veto a anúncios de Lula contra Flávio. A reportagem explicou que nem a campanha autorizada a contratar propaganda pode pagar para ampliar ataques ao adversário.
A disputa anterior sobre o documentário
Em julho, o PL já tinha acionado o TSE contra o ICL por causa do documentário Flávio Bolsonaro: a verdadeira história sobre o filho zero um. O partido questionou a publicidade paga e a mobilização em grupos de WhatsApp antes do período oficial de campanha.
A petição apontou 137 anúncios, com gasto estimado entre R$ 70 mil e R$ 80 mil, e cerca de 200 grupos com aproximadamente 160 mil participantes. São números apresentados pelo PL, referentes à divulgação do filme, e não aos anúncios de outubro.
Em 3 de outubro, a Agência Pública também identificou um anúncio feito pela plataforma norte-americana PagoLink Global que levava a uma reportagem do ICL Notícias sobre uma empresa de Flávio. A publicidade de terceiros não demonstra que o ICL a tenha contratado.
Em sua resposta à ação sobre o documentário, publicada em julho, o ICL defendeu a produção como jornalismo e classificou a iniciativa do PL como tentativa de intimidação. Afirmou que não recebe patrocínio de grupos políticos ou econômicos e que sua manutenção depende das mensalidades dos alunos.
O Conselho Editorial também declarou que o jornalismo permaneceria independente, “sem bets, sem bancos e sem apoio governamental”. Essas manifestações antecedem o levantamento dos anúncios de outubro.
Podemos contar com você?
Ficamos muito felizes por você ter lido esta reportagem até o final! No entanto, não pudemos deixar de notar que, embora você seja um leitor fiel de A Investigação, ainda não é assinante.
Dependemos 100% dos nossos assinantes. Com apenas R$ 15 por mês, você entra para a nossa comunidade e nos ajuda a continuar investigando o que querem esconder de você.
Leia mais:
A caixa-preta do ICL: entre a hipocrisia fiscal e as conexões com o PT
Nas últimas semanas, o Instituto Conhecimento Liberta (ICL) entrou na sua maior crise desde a fundação. Em 10 de julho de 2026, o jornalista Leandro Demori anunciou que foi tirado do ar e de todas as funções que exercia — inclusive da Direção de Jornalismo — por uma decisão que classificou como “unilateral da empresa”. Segundo ele, antes de ser afastado…





