Em 2022, o site LulaFlix chamava Luiz Inácio Lula da Silva, então candidato à Presidência, de “ex-presidiário” e reunia material negativo contra ele. Em 17 de outubro de 2026, o mesmo endereço divulgava pedidos de voto pela reeleição do presidente e publicava textos que descreviam Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL, como representante da extrema direita e associavam sua candidatura ao fascismo.
O domínio usado pela campanha de Jair Bolsonaro em 2022 “virou a casaca”: mudou de titular e de lado político. Hoje, o LulaFlix apresenta Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) como “Parceiros”, mas não aparece entre os sites declarados pela candidatura do presidente nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coletados em 14 de outubro.
A ausência do endereço no registro eleitoral também foi examinada pelo TSE em 2022. Na ocasião, o tribunal determinou que a campanha de Bolsonaro declarasse o LulaFlix como página oficial, pois o domínio estava registrado em seu CNPJ. A corte também proibiu o impulsionamento de propaganda negativa contra Lula, mas não ordenou a retirada integral do site do ar.
O registro atual identifica o engenheiro de software Fabio Selau como titular do domínio desde 21 de fevereiro de 2024. O portal se apresenta como fonte de notícias sobre o governo Lula e publica conteúdo majoritariamente favorável à reeleição do presidente: acompanha atos de campanha, pesquisas e apoios de artistas, mantém uma seção chamada “Anti Fake News” e reproduz artigos de opinião.
O LulaFlix ainda solicita doações para manter o portal e informa que usa publicidade do Google AdSense para financiar suas atividades. A combinação de conteúdo eleitoral, arrecadação e anúncios torna relevante esclarecer quem administra e financia o site e em que consiste a parceria anunciada com Lula e o PT. O nome de Selau também aparece na controvérsia do domínio de Paulo Kogos, influenciador conservador cujo nome foi usado em um site pornográfico e em uma empresa.
Procurado por A Investigação, Selau negou vínculo partidário e receitas, disse que o portal era um teste de publicação automática e pediu que a reportagem não fosse publicada. Após o contato, tirou o site do ar. Arquivos históricos, porém, mostram o portal acessível durante a eleição de 2024, pedidos de contribuição e código que permitia indexação nas buscas — o contrário do bloqueio que afirmou ter configurado.
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De página de ataque a portal favorável a Lula
A campanha de Bolsonaro registrou o domínio em seu CNPJ em agosto de 2022. Na época, o LulaFlix reunia publicações negativas sobre Lula e usava o subtítulo “Conheça a verdade sobre o ex-presidiário”.
O TSE proibiu o impulsionamento da página e determinou que a campanha a identificasse como site oficial, pois ela não havia sido informada no registro da candidatura. A Justiça Eleitoral não ordenou a derrubada permanente do domínio inteiro, como sugerem algumas versões do episódio.
Em março de 2024, o site constava em sites de arquivamento como “domínio disponível para compra”. O registro atual aponta Selau, engenheiro de software, como titular do endereço desde fevereiro de 2024. Isso comprova a troca de titularidade após a eleição de 2022, mas, por si só, não esclarece por que o domínio ficou disponível para novo registro. Hoje, o LulaFlix se descreve como um blog de notícias sobre o governo e mantém seções como “Governo Lula” e “Anti Fake News”.
A mudança aparece no conteúdo. Além do artigo publicado em 5 de outubro com pedido de voto em Lula, uma publicação de 10 de outubro reproduz uma postagem que diz: “No dia 25 de outubro, VOTE LULA 13!”. Nesse segundo caso, o pedido está em uma postagem de terceiro incorporada à matéria, e não em uma declaração assinada pelo operador do site.
O domínio de Kogos “sequestrado”
Em maio de 2024, o nome de Fabio Selau apareceu em comentários nas redes associados a outro caso de registro de domínio. O episódio, que se tornou um meme popular com diversas variações, envolvia o influenciador conservador Paulo Kogos. Alguém havia registrado o endereço paulokogos.com.br e, em troca de mensagens, ofereceu revendê-lo ao próprio Kogos. A conversa circulou amplamente: Kogos perguntava “quem é vc? pq vc registrou o domínio paulokogos.com.br?” e a resposta registrada foi “Registrei porque estava disponível. Mas posso te revender”.
O meme ganhou variações. Em algumas versões, o registrante se apresentava como um usuário chamado Futera Guimaraes; em outras, como Renato Bacon. As capturas de tela mostravam e-mails diferentes oferecendo a mesma revenda. O tom era de deboche: o domínio do influenciador havia sido “tomado” e estava à venda para o próprio interessado. A brincadeira se espalhou entre grupos de direita e de esquerda, com comentários zombando da falta de controle de Kogos sobre o próprio nome na internet.
No X, um usuário associou Selau ao episódio com a frase “Jamais esqueceremos o Fábio Selau que desestruturou o kogos kkkkk”. A menção não comprova que Selau tenha sido o registrante daquele domínio, mas coloca o nome do titular atual do lulaflix.com.br no mesmo tipo de prática — registro de endereço de terceiro com oferta de revenda — meses antes de ele aparecer como responsável pelo portal que, em 2026, pede votos para Lula.
O uso do nome de Kogos por Selau também aparece em um registro oficial. Um comprovante consultado diretamente por A Investigação na Receita Federal identifica uma empresa individual de Fabio Selau, CNPJ 36.935.223/0001-98, com o nome fantasia “Paulo Kogos”. A empresa foi aberta em 15 de abril de 2020 e baixada em 17 de junho daquele ano, por encerramento voluntário. Na resposta enviada à reportagem, Selau não abordou o episódio nem explicou a finalidade da empresa.
Os arquivos do endereço ajudam a reconstituir o que havia por trás do meme. Em 16 de abril de 2020, um dia depois da abertura da empresa, paulokogos.com.br abrigava um site pornográfico com vídeos de travestis. A página convidava os visitantes a seguir o Instagram de Selau para acompanhar as novidades.
Em novembro de 2020, o endereço exibia um aviso de suspensão da hospedagem. Em fevereiro de 2021, o conteúdo pornográfico voltou a aparecer nos arquivos, acompanhado de um pedido de contribuições. O aviso dizia que o site sairia do ar por falta de dinheiro, e não por ordem judicial, e oferecia pagamentos por boleto ou cartão via Mercado Pago. Capturas de junho e julho de 2021 voltaram a mostrar uma página de hospedagem com o aviso de site parado.
Hoje, o mesmo endereço abriga o site de campanha de Kogos e consta entre os endereços declarados em sua candidatura. Na eleição de 2026, ele disputou o cargo por São Paulo pelo PL, recebeu cerca de 60 mil votos e ficou como primeiro suplente do partido. Kogos diz considerar sua entrada na Assembleia praticamente garantida, diante da possibilidade de deputados eleitos assumirem secretarias.
Em resposta a esta reportagem, Paulo Kogos confirmou que Fábio Selau de fato fez o registro do domínio sem sua permissão ou conhecimento e operou um site pornográfico contrário às suas crenças e valores, causando danos objetivos à sua imagem. Ele conta que o domínio “www.paulokogos.com.br” só lhe foi transferido em 2022 após contatos do seu assessor Rodrigo Kasparov Neves e de seu advogado José Carlos Novais Neto.
Em 3 de dezembro de 2025, o LulaFlix publicou na seção “Últimas Notícias” um suposto ranking dos melhores sites de acompanhantes do país. O texto diz que sua equipe testou as plataformas e elege o RadarGP como vencedor. Há um detalhe nos links: ao clicar nos nomes dos três concorrentes listados, o leitor também é levado a páginas do domínio do RadarGP.
A estrutura favorece uma única empresa sob a aparência de comparação entre quatro. O artigo elogia recursos do RadarGP, critica os rivais e termina com outro convite para acessar a plataforma vencedora. Não há indicação de patrocínio ou de critérios verificáveis para o ranking. É um forte indício de conteúdo promocional dentro de um portal que também pede doações para se manter e se apresenta como parceiro de Lula e do PT.
Cadastro eleitoral, publicidade e dados pessoais
A regra do TSE para 2026 exige a comunicação à Justiça Eleitoral dos endereços usados por campanhas, com ressalvas para iniciativas de pessoas físicas. Ela também admite a manifestação política espontânea na internet. Assim, a ausência do LulaFlix na ficha da candidatura, somada ao rodapé que lista Lula e o PT como “parceiros”, levanta uma pergunta sobre o vínculo real com a campanha; não prova, isoladamente, uma irregularidade. Seria necessário estabelecer quem dirige, financia e eventualmente promove o portal.
Há uma falha de transparência verificável na coleta de dados. O site pede e-mails para uma newsletter e dados pessoais no formulário de doações. Sua política de privacidade, datada de julho de 2024, não identifica claramente o controlador desses dados nem fornece seu contato e informações específicas sobre a duração do tratamento — pontos previstos no artigo 9º da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O portal mantém uma página de contato. A ausência do nome de um encarregado de dados, por sua vez, não basta para apontar infração: a autoridade de proteção de dados dispensa agentes de pequeno porte dessa indicação em determinadas condições.
O que diz o responsável
Em resposta a A Investigação, Selau afirmou que o LulaFlix “não tem relação com o PT nem outro partido político” e que nunca recebeu dinheiro de partidos, doações ou publicidade. Disse que o site apenas reunia notícias de diversas fontes, favoráveis ou não a Lula, para testar o WP AutoFlow, ferramenta de código aberto que automatiza publicações em WordPress. Segundo ele, os artigos políticos não eram produzidos manualmente.
Selau também afirmou que não fazia manutenção no portal, que configurou tags para impedir a indexação no Google e em outros mecanismos de busca e que as publicações antigas eram removidas automaticamente. Disse que o site praticamente não tinha acessos e que normalmente o retirava do ar em períodos eleitorais. “A única coisa que esqueci foi de deixar ele offline agora, em período eleitoral, como normalmente faço em outros períodos políticos”, escreveu.
Os registros históricos contradizem a explicação sobre a retirada durante eleições. O portal já funcionava no formato noticioso em 2 de julho de 2024. As capturas de 18 de setembro e de 5 de outubro daquele ano mostram a página acessível durante a campanha municipal, inclusive na véspera do primeiro turno. O site exibia notícias políticas, botão “Contribuir” e a lista de parceiros.
A afirmação sobre o bloqueio às buscas também é contrariada pelo código preservado. Nas capturas de julho, setembro e outubro de 2024, outubro de 2025 e outubro de 2026, a página inicial continha a instrução “follow, index”, que permite indexar o conteúdo. Para impedir a indexação, o comando seria “noindex”. A configuração examinada, portanto, fazia o contrário do que Selau descreveu.
Antes da retirada, A Investigação acessou o LulaFlix e visualizou diversos banners publicitários. O código de 7 de outubro de 2026 também carregava o serviço de anúncios do Google AdSense com um identificador de publicador. A política de privacidade declarava que os anúncios financiavam o funcionamento do site. O formulário de contribuição oferecia doações de R$ 10 a R$ 250 e opções de cartão e PayPal. Selau afirma que nunca recebeu qualquer valor.
A descrição de um portal praticamente sem acessos também contrasta com os contadores que ele próprio exibia. Uma captura de 7 de outubro de 2025 mostra cerca de 14,9 mil, 9,6 mil e 8,2 mil visualizações em diferentes publicações. São números apresentados pelo site, sem auditoria de audiência.
A ferramenta citada por Selau existe e descreve funções de captura de textos de outros sites, reescrita por inteligência artificial e publicação automática. A apuração também encontrou notícia desfavorável ao governo Lula e artigos assinados “Da Redação” que já apareciam em outro veículo. Esses elementos são compatíveis com parte de sua explicação sobre a reprodução de conteúdo.
Ao final da resposta, Selau pediu: “Peço, por gentileza, que não crie nenhuma reportagem”. Justificou que não havia dinheiro, anúncios, doações ou parcerias envolvidos e sugeriu que outros sites partidários mereceriam mais atenção. Após o contato da reportagem, tirou o LulaFlix do ar.
A Investigação decidiu publicar porque o portal estava acessível ao público, divulgava pedidos de voto, apresentava Lula e o PT como parceiros, solicitava contribuições e coletava dados pessoais. As contradições entre a resposta do responsável e os registros do próprio site também são de interesse dos leitores e dos eleitores. A versão de Selau integra esta reportagem.
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