A Converse, marca americana responsável pelos icônicos tênis All Star, apagou de seus canais uma fotografia da cantora pop sul-coreana Karina, numa peça criada para vender os tênis Chuck 70 X. Tudo porque militantes e celebridades enxergaram na composição um integrante da Ku Klux Klan (KKK) e os pés de uma pessoa negra vítima de linchamento.
A fotografia fazia parte de Stars Align With KARINA, campanha construída em torno da estrela de cinco pontas da própria Converse. Circulou por semanas até que usuários do Threads lhe dessem uma legenda racial e espalhassem teorias da conspiração. Perfis maiores repetiram a interpretação, outra fotografia — de uma campanha diferente — foi anexada como suposta reincidência, a semelhança virou notícia e a empresa recuou pedindo desculpas.
A Converse declarou à People que entendia por que a imagem era “profundamente perturbadora”, reconheceu que havia errado e anunciou a remoção. A nota não admite que a empresa tenha desenhado um capuz ou encenado um linchamento. O pedido de desculpas contém o dano reputacional, mas passa a ser usado pelo mesmo público como a confissão que faltava.
Nove dias antes da explosão da conspiração no Threads, 59 parlamentares democratas haviam chamado de “crise nacional” uma série de mortes de negros encontrados enforcados. Uma carta ao Departamento de Justiça e ao FBI falou em ao menos dez casos em 2026. Só que as referências indicadas pelos próprios congressistas não identificam dez mortes daquele ano. Entre os episódios há suicídios oficialmente estabelecidos, investigações sem indício de crime, casos ainda inconclusivos e apenas um homicídio: Tasia Fortune. O acusado de matá-la, Jarques Ratliff, também é negro, embora se declare inocente.
Há realmente um aumento real dos suicídios entre negros nos EUA: cerca de 53% entre 2014 e 2024, embora a taxa siga inferior às de brancos e indígenas. Sufocação — categoria do CDC que inclui enforcamento, estrangulamento e asfixia — respondeu por cerca de 23% dos suicídios americanos em 2024. Mas o que a teoria da conspiração tem espalhado é que haveria um ressurgimento de grupos supremacistas da KKK cometendo homicídios diversos de negros nos EUA, majoritariamente por enforcamento. Não há qualquer prova ou sequer indício.
A mesma engrenagem já apareceu numa reportagem de A Investigação sobre a operação que localizou 163 crianças desaparecidas na Flórida. O número foi convertido nas redes em prova de uma rede internacional de tráfico, embora houvesse apenas três prisões, nenhuma evidência pública de uma organização ligando os casos e um universo que reunia fugitivos, disputas de guarda, negligência, abuso e possíveis vítimas de exploração. Nos dois episódios, categorias diferentes foram empilhadas, a hipótese mais grave ocupou as lacunas e o volume da repercussão passou a substituir a prova.
É essa a conclusão: a foto admite uma associação desagradável e a direção de arte pode ter sido incapaz de antecipá-la. Mas a explicação literal continua mais simples — a estrela da marca projetada sobre uma modelo que segura o produto anunciado. Não há prova de propaganda da Klan, código de linchamento ou intenção racista. Há uma imagem ambígua, um trauma histórico real, um ambiente preparado pelo pânico e uma corporação que preferiu apagar a peça a disputar seu significado. Erro grosseiro: nunca ceda a linchadores virtuais.
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Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
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A estrela que virou capuz
Karina, integrante do grupo de K-pop Aespa, foi anunciada como embaixadora global da Converse em 2026. A campanha promovia o Chuck 70 X e o Run Star Crush. Em 27 de agosto, a empresa publicou o lançamento mundial do primeiro sob o conceito Stars Align With KARINA: “as estrelas se alinham com Karina”.
Na fotografia que se tornaria alvo do cancelamento, a estrela de cinco pontas é projetada como um holofote. Karina ocupa o centro da forma, veste uma saia branca abaixo dos joelhos e segura um par de tênis pretos pelo cano. Uma ponta do facho atravessa a saia. O contraste elimina parte do braço na sombra e destaca os dois calçados. Depois que alguém fornece a legenda “KKK e linchamento”, o triângulo claro pode parecer um capuz, enquanto os tênis suspensos podem ser percebidos como pés.
A composição oferece pontos de apoio à associação, mas também explica cada elemento sem recorrer a uma mensagem clandestina. A estrela é o símbolo da Converse e o conceito declarado da campanha. Os objetos pretos são o produto anunciado. Segurar um par pelo cano é uma solução banal de fotografia de calçados. Para formar a cena de linchamento, o observador precisa retirar cada elemento de sua função publicitária e recombiná-lo numa imagem que não está literalmente ali.
Embora Karina seja sul-coreana, a Converse, controlada pela Nike, é americana. O crédito da fotografia é de Marloes Haarmans, fotógrafa holandesa radicada em Londres, e a publicação da equipe identifica o trabalho como styling para a Converse Europe. Seu estilo pertence à fotografia editorial e publicitária conceitual, próxima do still life contemporâneo. Haarmans isola objetos em estúdio e cria combinações deliberadamente estranhas: comida vira escultura, utensílio parece organismo, roupa deixa de funcionar apenas como roupa e ganha forma abstrata. A estética evoca, em chave pop e surrealista, a tradição holandesa da natureza-morta: constrói imagens para deslocar a leitura imediata do espectador.
Isso não torna a direção de arte imune a crítica. A equipe pode ter subestimado uma leitura previsível num país em que a questão racial permanece como trauma histórico. Essa é uma avaliação sobre ambiguidade e imprudência visual. É diferente de afirmar, como fez uma fotógrafa citada pelo The Washington Post, que quem produziu o anúncio “sabia exatamente” o que fazia.
Quem acendeu o rastilho
A campanha não nasceu em setembro. A imagem e outras peças de Karina já circulavam desde agosto, e o Chuck 70 X foi lançado globalmente no dia 27 daquele mês. A denúncia ganhou escala apenas em 17 de setembro, principalmente no Threads. O aplicativo de Mark Zuckerberg, alternativa ao X de Elon Musk, tem concentrado diversas campanhas de cancelamento baseadas em teorias da conspiração.
Entre os posts reproduzidos pela imprensa, o designer Zach Berger forneceu a fórmula que seria copiada: o anúncio seria racista, pareceria uma roupa da Klan e mostraria um linchamento. A atriz Yvette Nicole Brown perguntou: “Isso é um linchamento, certo?” e acrescentou que também via um manto da Klan. Outro usuário, ligou a fotografia às mortes de negros encontrados enforcados no Sul. A legenda deixou de registrar apenas uma impressão e passou a acusar uma escolha deliberada.
Não é possível identificar o primeiro ser humano que fez a associação. É possível rastrear o circuito que lhe deu escala: Threads, perfis com audiência, veículos de moda e da imprensa negra, imprensa generalista e política. A Women’s Wear Daily obteve a manifestação da empresa. Depois vieram People, The Washington Post e o deputado democrata Troy Carter, da Louisiana, para quem a campanha mostrava o que parecia ser um integrante encapuzado da Klan junto de uma vítima pendurada.
A tese da “reincidência” apareceu quando a usuária @danidoodlebug13 republicou no Threads uma foto da colaboração Palmes × Converse — um homem numa escada erguendo tênis junto a um galho — e disse que a imagem “reforçava a mensagem”; a influenciadora Kida Maree depois colocou as duas peças lado a lado e evocou Strange Fruit, canção de Billie Holiday sobre linchamentos. A segunda foto pertence ao Jack Purcell PDM, outro produto e outro conceito, e mostra tênis junto a uma árvore, não um corpo: ela é relevante para explicar como a acusação ganhou escala, não para provar uma mensagem racial coordenada.
O “surto de linchamentos” que preparou o olhar
Em 8 de setembro, nove dias antes da explosão no Threads, a deputada Ayanna Pressley e outros 58 parlamentares — todos democratas — enviaram uma carta ao procurador-geral Todd Blanche e ao diretor do FBI, Kash Patel. O texto afirmou que ao menos dez negros haviam sido encontrados enforcados em 2026, chamou o fenômeno de “crise nacional” e pediu autópsias independentes, auditorias das apurações locais e relatórios ao Congresso.
A cobrança por investigações rigorosas é legítima. A sustentação numérica, não. A carta não apresenta os nomes dos dez mortos. Para a afirmação, remete a uma reportagem do Washington Informer que listava oito pessoas e a outra do TheGrio. A primeira misturava três mortes anteriores a 2026 — Javion Magee e Dennoriss Richardson, em 2024, e Demartravion “Trey” Reed, em 2025. A segunda referência tratava apenas de Demetrius Fleming, cujo caso permanecia aberto. As fontes citadas não demonstram a conta apresentada pelo Congresso.
Há ainda um deslocamento entre “pessoas encontradas enforcadas” e “linchamentos modernos”. O primeiro enunciado descreve a posição dos corpos. O segundo imputa homicídio, autoria e, no contexto histórico mobilizado, terror racial. O próprio Washington Informer reconheceu que não havia evidência ligando as mortes e que suspeita não transforma suicídio em assassinato. Nas redes, essas cautelas desapareceram quando os rostos foram reunidos num único cartaz.
Kyle Bassinga, de 21 anos, foi encontrado morto no Fair Oaks Park, na Geórgia. A polícia do condado de Cobb informou que vídeos, testemunhas e outros elementos mostravam que ele estava sozinho e que não havia indício de ação de terceiros. Em Raleigh, na Carolina do Norte, câmeras registraram um homem de 32 anos caminhando sozinho até uma árvore com um cabo elétrico e também captaram o que ocorreu. A mãe relatou histórico de sofrimento psíquico.
Outros casos mantêm dúvidas legítimas. A morte de Juliana Nzita, de 16 anos, foi declarada suicídio, mas a família questiona a rapidez da apuração e a ausência de autópsia completa. A de To’Nea Nicole Miller também foi tratada como suicídio sem indício de agressão, embora parentes discordem. As mortes de Justice Kai James e Demetrius Fleming ainda exigiam esclarecimentos públicos mais completos. A posição jornalística não é confiar cegamente na polícia nem preencher todas as lacunas com a mesma causa; é registrar o estado de cada prova.
Tasia Fortune é a exceção confirmada como homicídio. Jarques Ratliff foi acusado de assassinato e se declarou inocente. A Associated Press informou que ele também é negro, mantinha algum tipo de relação com Fortune e que a polícia esperava outras prisões. A raça do acusado não exclui por si só um crime de ódio, mas nenhuma motivação racial foi apresentada. Em entrevista à People, a mãe de Tasia disse que não acreditava que a filha tivesse cometido suicídio e que considerava o crime pessoal, não racial.
A carta de 8 de setembro sustenta que há uma “crise nacional” de linchamentos modernos com base em outro documento: o A Crimson Record, relatório de fevereiro de 2026 da ONG JULIAN, fundada pela advogada Jill Collen Jefferson. A autora lista “mais de 70 linchamentos modernos” em sete estados do Sul entre 2000 e 2025 — Mississippi no topo, com 20 — e reúne sob a mesma narrativa enforcamentos, mortes sob custódia, assassinatos de mulheres trans e óbitos sem motivação discriminatória comprovada.
É a mesma operação estatística que uma revisão de Eli Vieira e deste repórter expôs nos dados do Grupo Gay da Bahia (GGB). Entre as mortes que o grupo classificou como homicídios homofóbicos em 2017, apenas 6% tinham motivação homofóbica comprovada; 42% não apresentavam indício dessa motivação. A contagem original nascia de recortes de imprensa, aos quais se atribuía a causa do crime antes de convertê-los em estatística anual. Daniel Reynaldo, cujo trabalho pioneiro ajudou a motivar a revisão do GGB, aplicou procedimento semelhante ao banco do Lesbocídio: dos 126 incidentes listados, apenas dois apareciam claramente como crimes motivados por preconceito.
Famílias têm o direito de contestar laudos, exigir autópsias e desconfiar de autoridades. A história americana fornece razões para essa desconfiança. Mas história não substitui perícia. Quando suicídios, homicídios e inquéritos abertos são empilhados como uma única onda de linchamentos, uma crise real de saúde mental desaparece dentro de outra narrativa — e essa narrativa passa a dirigir o olhar até sobre uma fotografia de tênis.
Militância woke transforma tomada em focinho de porco
Em 2020, o professor Greg Patton, da USC, usou numa aula de comunicação a expressão mandarim nèi ge — “aquele”, mas também funciona como uma muleta da fala, equivalente a “hum” —, e alunos ouviram o insulto racial em inglês; a universidade o afastou da disciplina, embora uma investigação interna tenha concluído que ele não violara norma alguma. No Brasil, o mesmo mal-entendido reaparece na Procissão do Fogaréu, encenada na Cidade de Goiás desde 1745: os farricocos, de túnica e capuz cônico, representam os soldados que perseguem Cristo e usam um traje penitencial de origem medieval, mais de um século anterior à Klan. Em ambos os casos, um som ou uma silhueta é arrancado de seu contexto e traduzido pelo repertório racial americano: a associação feita pelo observador passa a valer como intenção de quem falou, vestiu ou fotografou.



No caso da polêmica da Converse, nem ao menos um chapéu há, mas uma imagem que, com muita força, pode se parecer com um chapéu. O cérebro não recebe imagens como uma câmera neutra. Ele procura formas conhecidas, completa contornos e testa hipóteses com base em expectativas anteriores. Esse mecanismo, que ajuda a reconhecer rapidamente um rosto na multidão, mas também confunde tomada com focinho de porco, é conhecido como pareidolia: a percepção de uma figura significativa onde existe apenas uma combinação ambígua de luz, textura e forma.
Em 2014, pesquisadores chamaram esse fenômeno de “ver Jesus numa torrada”. O estudo publicado na revista Cortex mostrou que sugestões prévias alteravam o que participantes diziam enxergar em imagens compostas por ruído. A Universidade de Toronto explicou o resultado como uma interação normal entre expectativas formadas no córtex frontal e o processamento visual. O religioso predisposto a encontrar um sinal sagrado reconhece Cristo numa mancha de umidade, a Virgem Maria num vidro ou um rosto numa torrada. A forma oferece os pontos; o repertório completa o personagem.
Na fotografia da Converse, a ponta iluminada existe; a saia branca existe; os tênis suspensos existem. O capuz e o cadáver são a síntese criada pelo observador. Depois que a interpretação é enunciada, torna-se difícil voltar a ver apenas os elementos originais. A legenda funciona como a sugestão experimental: orienta o olho antes que o olho examine a cena.
Neste episódio, a militância woke aplicou ao repertório racial a mesma prontidão com que religiosos reconhecem imagens sagradas. Seu vocabulário procura códigos ocultos, dog whistles, ausências raciais e estruturas de opressão. Diante de um material ambíguo, a hipótese mais grave recebeu prioridade. A interpretação passou de possibilidade a certeza sem atravessar a etapa da prova.
O passo seguinte é coletivo. Uma pesquisa publicada na Science Advances, baseada em quase 13 milhões de tuítes, concluiu que curtidas e compartilhamentos aumentam a probabilidade de novas expressões de indignação moral. O estudo descreve a arquitetura que favorece a acusação máxima: indignação produz engajamento; engajamento confirma a indignação; repetição cria aparência de consenso.
Essa dinâmica de recompensa se encaixa no pânico moral descrito por Stanley Cohen em Folk Devils and Moral Panics. Como já explicou A Investigação, o pânico precisa de um folk devil — um “demônio popular” no qual uma ameaça difusa é condensada e contra o qual a indignação pode se organizar. Neste episódio, a equipe criativa da Converse foi transformada num núcleo de supremacistas que teria escondido códigos raciais numa campanha de tênis.
Escolhido o vilão, cada lacuna passou a confirmar a tese: a ambiguidade virou dog whistle, a foto da escada virou reincidência e o pedido de desculpas virou confissão. Celebridades, imprensa e um deputado deram autoridade pública à acusação antes que aparecesse qualquer prova de intenção.
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