Nesta segunda-feira, 28, foi lançado o Auditoria Cidadã, aplicativo que organiza os boletins de urna do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que o eleitor consulte o resultado de sua seção, veja comparecimento, abstenção e votos por candidato e refaça os percentuais. A iniciativa retoma a controvérsia que marcou a eleição de 2022 sobre a possibilidade de conferir, por conta própria, os resultados das urnas.
O aplicativo é criação de Letícia Padilha, que atuou por anos na área de inteligência da Polícia Federal e ocupou posições de chefia, entre elas a de um núcleo de análise de vínculos com organizações criminosas. Mais recentemente, chefiou a divisão responsável por avaliar e gerenciar ferramentas de inteligência usadas em toda a instituição nas áreas de investigação e inteligência. Ela criou o painel gratuito, com dados oficiais do TSE, como alternativa ao voto impresso.
O Auditoria Cidadã é um projeto pessoal e gratuito, sem vínculo com a Polícia Federal, o TSE ou a Justiça Eleitoral. O próprio site informa que não é um aplicativo oficial. A ferramenta lê dados publicados pelo tribunal e aponta diferenças aritméticas, sem examinar o software das urnas ou determinar a causa de uma divergência. O princípio adotado por Padilha é simples: primeiro o dado, depois o cálculo; a interpretação cabe a quem consulta.
Em um dos Reels, Padilha diz que “dado público não deveria ser só público. Deveria ser compreensível” e promete ensinar a localizar, baixar e ler os boletins. Em outro Reels, relaciona a ferramenta à ausência de um voto individual impresso: o eleitor pode ao menos examinar os resultados de cada seção e conferir as contas. É essa possibilidade, limitada aos registros produzidos depois da votação, que ela procura tornar acessível.
Como o eleitor usa a ferramenta
O caminho começa fora do aplicativo. O eleitor deve obter os arquivos de boletins de urna no Portal de Dados Abertos do TSE e carregá-los no site. O painel aceita CSV e o ZIP oficial completo, sem que seja preciso descompactá-lo. Segundo Padilha, também permite carregar arquivos de vários estados de uma vez. Depois, o usuário pode filtrar estado, município, zona e seção para consultar comparecimento, abstenção, votos válidos, brancos e nulos e a votação por candidato. Também pode comparar seções e abrir os registros usados nos cálculos.
Um botão chamado “De onde veio?” acompanha os indicadores. Na metodologia, o projeto explica, por exemplo, que o percentual de comparecimento divide o número de votantes pelo de eleitores aptos. A abstenção usa o campo correspondente do arquivo, em vez de resultar de uma subtração feita pelo programa. Para cada candidato, há percentuais tanto sobre os votos válidos quanto sobre o comparecimento. Se faltar um campo, o site não o transforma em zero.
O aplicativo também faz verificações aritméticas. Confere se o comparecimento não supera o número de aptos, se a soma de comparecimento e abstenção corresponde ao eleitorado da seção e se há quantidade negativa de votos. Para cargos em que cada eleitor escolhe um candidato, compara a soma dos votos com o comparecimento. A regra não é aplicada automaticamente ao Senado quando há duas vagas em disputa. Se uma conta falha, o painel marca “Diferença encontrada”; essa indicação, segundo o projeto, não identifica a causa da divergência. O painel ainda exibe mediana, quartis e valores fora do padrão, sempre com o tamanho da amostra.
Por enquanto, o usuário pode experimentar o funcionamento com arquivos de eleições anteriores ou com uma demonstração identificada como fictícia. Nela aparecem uma eleição de 2099, o estado “ZZ” e candidatos inventados. O aviso impede que os exemplos sejam confundidos com uma votação real. O site também pode ser adicionado à tela inicial do celular, como um aplicativo.
O que será possível conferir em outubro
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Depois do encerramento da votação, o TSE divulgará na internet os boletins recebidos para a totalização. Eles poderão ser comparados com os boletins impressos nas seções. Já os pacotes de boletins no Portal de Dados Abertos, utilizados pelo Auditoria Cidadã, serão publicados após o encerramento da totalização, conforme informou o tribunal.
Essa distinção delimita o que o aplicativo poderá fazer. Ao carregar o arquivo oficial, o eleitor conseguirá examinar os totais registrados para sua seção e conferir as operações feitas pelo painel. A comparação entre o boletim impresso no local de votação e o boletim divulgado pelo TSE exige que alguém obtenha os dois registros. O aplicativo, por si, não verifica se o voto digitado correspondeu à intenção do eleitor nem testa a integridade do software da urna.
Os arquivos são processados no aparelho do usuário e só ficam guardados nele se a pessoa escolher essa opção.
O assistente que funciona hoje é guiado, sem respostas automáticas de inteligência artificial. Padilha diz que está atualizando o aplicativo para permitir que cada usuário conecte sua própria IA. Como o projeto é gratuito e não tem patrocinadores, ela afirma que não consegue bancar continuamente o serviço: cada pergunta custa de US$ 0,02 a US$ 0,09.
A disputa em torno das urnas
A discussão sobre como fiscalizar as urnas marcou a eleição de 2022. No ano anterior, a Câmara havia rejeitado a proposta de tornar obrigatório o voto impresso. A derrota da PEC não encerrou o assunto: Jair Bolsonaro manteve as críticas ao sistema eletrônico no centro de sua campanha, enquanto o TSE defendia as formas de auditoria já previstas, entre elas o Boletim de Urna, os testes de integridade e a inspeção dos sistemas.
Depois do segundo turno, o PL pediu uma verificação extraordinária de modelos de urna anteriores a 2020. O TSE rejeitou o pedido por falta de indícios que justificassem a medida. Em outro tipo de fiscalização, o Tribunal de Contas da União comparou mais de 4 mil boletins impressos do primeiro turno e 604 do segundo com os dados usados na totalização, sem encontrar divergências. Essa comparação entre dois registros do mesmo resultado é diferente de verificar cada voto depositado.
A distinção entre os dois papéis é decisiva. A proposta de voto impresso discutida para 2022 previa um registro físico de cada voto, conferível pelo eleitor antes do depósito. O Boletim de Urna já sai impresso ao fim da votação e traz os totais da seção, sem identificar o voto de cada pessoa. O aplicativo de Padilha torna esses totais mais fáceis de examinar e comparar; não oferece a conferência individual defendida pelos partidários do voto impresso.
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