Na terça-feira, 15 de setembro de 2026, enquanto o Supremo Tribunal Federal discutia a abertura de uma investigação contra Alexandre de Moraes por supostas mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, do Banco Master, a palavra “Nepal” voltou aos assuntos mais comentados. A sessão terminou sem uma decisão depois de Flávio Dino pedir vista.
Foi um show de horrores, cheio de agressões e ironias ao ministro André Mendonça. Os mesmos que perseguiram, censuraram e violaram a lei passaram a defender o estrito cumprimento dela — viraram garantistas da noite para o dia. Dino, cínico, usava um argumento e, na frase seguinte, o contrário. Isso revoltou boa parcela dos brasileiros que reclamaram nas redes. Mas muitos, escondidos atrás da ilusão do anonimato de perfis fakes ou apócrifos, pediram por “Nepalização”.
Pessoas públicas também. O comentarista Rodrigo Constantino publicou no X: “Dica de viagem: Nepal”. O comentário não era dica de viagem. Era referência aos protestos de setembro de 2025 no Nepal, quando a geração que cresceu no WhatsApp e no TikTok derrubou o governo de forma violenta.
Em 4 de setembro de 2025, o governo do Nepal bloqueou cerca de 26 plataformas digitais, entre elas Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e X. A justificativa oficial era que as empresas não haviam cumprido exigências de registro no país. Para uma geração cansada da corrupção, do desemprego, do nepotismo e da ostentação dos filhos da elite política, a medida pareceu uma tentativa de silenciar o último lugar em que ainda se podia protestar.
Quatro dias depois, milhares de jovens foram às ruas de Katmandu. O protesto começou de forma majoritariamente pacífica, mas logo manifestantes avançaram sobre barreiras próximas ao Parlamento. A polícia respondeu com gás, balas de borracha e munição real. A Reuters registrou pelo menos 19 mortos naquele primeiro dia.
Em 9 de setembro, a revolta escalou. O Parlamento, a Suprema Corte, ministérios e até residências de políticos foram incendiados. Escolas, hotéis, emissoras e empresas privadas também foram atacados. Policiais foram mortos, milhares de presos escaparam e o Exército ocupou as ruas. O primeiro-ministro K. P. Sharma Oli renunciou. Foi esse país em chamas que uma parcela da direita brasileira decidiu transformar em slogan.
Eu respondi a Constantino que falar dos Estados Unidos era fácil e que nós, que estamos fora do país, temos o dever de ser responsáveis com as palavras. Na sequência, publiquei um trecho de minha entrevista o programa Sem Rodeios da Gazeta do Povo onde eu já adiantava este argumento.
Constantino retrucou escrevendo: “a turma do 5o elemento não quer que se fale em Nepal. A solução é votar no André do Prado, do centrão, para o Senado... 🤡”.
A referência a André do Prado não foi aleatória. Constantino tomou o lado de Ricardo Salles na disputa pelo Senado em São Paulo e se opôs à escolha de Prado, apoiada por Eduardo Bolsonaro e associada por ele ao centrão e ao grupo de Valdemar Costa Neto. A controvérsia já durava meses. No dia seguinte ao tuíte sobre o Nepal, Constantino continua pedindo voto em Salles e rejeitando Prado.
A menção ao Estúdio 5º Elemento também veio de uma disputa anterior. Há meses, Constantino mantém uma batalha política com integrantes do projeto e, especialmente, com o YouTuber Kim Paim. Este que vos escreve também colabora com o canal, embora não seja participante desta disputa política.
Constantino tem o direito de apoiar Salles, criticar Prado e usar sua plataforma para fazer política, de maneira explícita ou velada. Também tem o direito de preferir Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Romeu Zema ou qualquer outro nome. Nosso papel aqui, porém, não é apoiar ou escolher candidatos.
Constantino tampouco apresentou uma solução. Usou o Nepal como provocação, André do Prado como espantalho e o 5º Elemento como adversário conveniente. A insinuação é que só existiriam duas alternativas: aceitar a “Nepalização” ou se render ao centrão. Esse dilema é falso. É possível denunciar os abusos do STF, combater o centrão, apoiar candidatos conservadores e, ao mesmo tempo, rejeitar a transformação de uma revolta sangrenta em senha política.
Constantino tem o direito de fazer campanha. O tuíte sobre o Nepal, porém, não foi jornalismo. Não informou, não contextualizou e não indicou um caminho institucional entre a urna e a rua. Apenas elevou a temperatura e deixou para os seguidores o risco de interpretar até onde aquela “dica de viagem” deveria levá-los.
Em novembro de 2022, o mesmo Constantino dizia que “autorizava”, uma referência a uma possível intervenção feita por Jair Bolsonaro — algo que nunca aconteceu. Pouco mais de um mês depois, em 8 de janeiro de 2023, centenas de pessoas invadiram os prédios dos 3 Poderes em Brasília em revolta pelo resultado eleitoral, mas principalmente pela censura e perseguição por parte de Alexandre de Moraes.
O ex-comentarista da Jovem Pan, Rodrigo Constantino mora em Miami, nos Estados Unidos, há muitos anos. Em resposta a esses comentários, muitos destacaram a hipocrisia de pedir “Nepal” de um sofá na Flórida — muito longe da resposta que, certamente, viria depois.
Eu entendo a revolta. Tenho documentado censura, perseguições, abusos processuais, investigações intermináveis, concentração de poderes e a transformação de instrumentos excepcionais em rotina. Cobri intensamente o 8 de janeiro e defendi presos submetidos a acusações genéricas, prisões excessivas, penas desproporcionais e violações do devido processo. Fui perseguido por causa disso e isso me trouxe um imenso custo pessoal, ainda que eu não me arrependa de ter publicado a Vaza Toga 2.
Nada disso me obriga a fingir que a invasão e a depredação foram corretas. Sempre condenei os atos. Mas sempre separei o que eram manifestantes legítimos de vândalos, e as condenações desproporcionais.
Também não me obriga a assistir em silêncio enquanto comunicadores voltam a oferecer à população uma ruptura que eles próprios não podem controlar — e cuja conta, mais uma vez, será paga por pessoas comuns.
Precisamos de você
Reportagens como esta têm custo. Além do trabalho de apuração, há toda uma estrutura técnica que permite publicar sem depender de anunciante ou de padrinho político.
Você já sabe o que A Investigação entrega: fizemos o Twitter Files Brasil, a Vaza Toga 2, 4 e 5, o Araponga de Miami, o Radiolão e várias outras investigações que trouxeram à luz o que outros veículos preferiam não ver.
Fazemos isso de forma independente — e independência tem preço.
O Nepal que não cabe no slogan
O Nepal não viveu uma manifestação de rua mais enérgica. Viveu uma ruptura política precedida por repressão letal e seguida por violência generalizada. O balanço adotado pela comissão criada para investigar os acontecimentos é de 76 mortos e mais de 2.600 feridos. Algumas fontes falam em 77 mortos.
Uma síntese do relatório de mais de 900 páginas da comissão, publicada pela Nepal News, atribuiu 42 mortes a disparos policiais. Três policiais foram mortos por multidões. As demais vítimas morreram no contexto dos incêndios, dos saques, dos confrontos e das fugas de presídios. A Human Rights Watch documentou tanto o uso desproporcional de força pelas autoridades quanto os ataques praticados no dia seguinte contra políticos, jornalistas, escolas, empresas e prédios públicos.
Os danos materiais foram estimados em aproximadamente US$ 586 milhões. Mais de 2 mil instituições, cerca de 2.700 edifícios e 12 mil veículos foram afetados. Em uma economia anual ao redor de US$ 42 bilhões, não se trata de dano simbólico. A reconstrução compete com despesas sociais num país que já sofria com pobreza, desemprego e a saída de jovens.
Uma das vítimas dos ataques foi Rabi Laxmi Chitrakar, mulher do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal. Manifestantes incendiaram a residência do casal; ela sofreu queimaduras graves e ficou em estado crítico, mas sobreviveu. Durante a crise, circulou a informação de que Chitrakar havia morrido e de que seria esposa do então primeiro-ministro K. P. Sharma Oli.
Os próprios organizadores juvenis disseram que o movimento foi sequestrado por grupos violentos. O Guardian registrou essa versão ainda durante a crise. Ela pode explicar parte dos ataques. Não salva o método. Se uma mobilização “orgânica” pode ser tomada por pessoas que seus iniciadores não conhecem, não comandam e não conseguem deter, então a ausência de controle não é uma virtude. É o perigo central.
Mudou o governo mas não resolveu o país
Seria desonesto dizer que nada mudou. O bloqueio das redes foi retirado, Oli caiu e uma administração interina assumiu. O Parlamento foi dissolvido e eleições antecipadas foram convocadas. Em março de 2026, o Partido Rastriya Swatantra, de Balendra “Balen” Shah, conquistou 182 das 275 cadeiras da Câmara dos Representantes. Shah tomou posse como primeiro-ministro no dia 27.
Foi uma grande renovação política. A velha elite partidária sofreu uma derrota que dificilmente ocorreria no mesmo ritmo pelo calendário anterior. O Nepal voltou ao voto depois do colapso e entregou ao novo governo uma maioria próxima de dois terços. É neste ponto que os defensores da “Nepalização” encerram a história: o povo se levantou, o primeiro-ministro caiu, um novo grupo chegou ao poder. A revolta teria “funcionado”. O Nepal já viu esse filme.
Em 1990, a rua tirou o rei absoluto. Em 2006, tirou o rei de vez e fundou a república. De 2008 a 2025 o país teve 14 ou 15 governos em 17 anos. Nenhum completou mandato. O carrossel foi o trio Oli, Deuba e Dahal — os heróis de 2006 viraram a oligarquia que a Gen Z queimou. Em janeiro de 2026, a Nepali Times reuniu esse histórico sob o título “revoluções incompletas”: cada levante começa com raiva dos governantes e promessa de reforma; nenhum entregou o que o cidadão de fato pedia: um governo limpo e eficiente. 2025 tentou tirar os partidos que herdaram o rei.
Ou seja, derrubar um governo não é o mesmo que resolver um país. Na última semana, um ano depois, a Kathmandu Post encontrou famílias sem reparação completa, feridos sem o atendimento prometido, manifestantes ainda presos e nenhuma responsabilização pelas mortes. Oli e o ex-ministro do Interior chegaram a ser detidos, mas foram soltos.
Um balanço da Al Jazeera mostrou que a corrupção das elites, uma das principais causas da revolta, mal foi enfrentada. Analistas afirmaram que as reformas prometidas ainda não se converteram em mudanças estruturais e que o governo não realizou trabalho relevante na reforma da burocracia.
O novo governo reduziu ministérios e anunciou mudanças. Ao mesmo tempo, passou a ser acusado de governar pelo Facebook, pressionar órgãos independentes e recorrer a ordenanças para contornar o Parlamento, apesar de possuir uma maioria próxima de dois terços. Medidas foram suspensas pela Suprema Corte. A Kathmandu Post também relatou detenções apressadas, remoções forçadas e tentativas de interferência na agência anticorrupção.
O Nepal mudou de governantes, mas ainda não demonstrou ter mudado o Estado. Corrupção, desemprego, pobreza e fragilidade institucional não desaparecem porque um Parlamento foi incendiado. A eleição deu legitimidade ao novo governo; não legitimou retroativamente cada ato da revolta.
O argumento “funcionou” depende de uma definição infantil de sucesso. Se a única medida for a queda de um governante, quase toda revolução vitoriosa funciona no primeiro dia. A pergunta séria vem depois: quem ficou com o poder, quem limita os vencedores, quem repara as vítimas, quem reconstrói o que foi destruído e se a população passou a viver melhor.
O 8 de janeiro já ensinou quem paga a conta
Em 8 de janeiro de 2023, uma multidão invadiu e depredou o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. Não houve mortes durante os ataques. Dezenas de pessoas ficaram feridas, entre elas agentes de segurança.
O Nepal foi muito mais violento e teve um resultado político imediato diferente. Oli caiu em cerca de 48 horas, enquanto o governo brasileiro permaneceu. No Nepal, a polícia havia matado manifestantes no primeiro dia, produzindo a explosão do dia seguinte. Em Brasília, não houve uma matança anterior que transformasse uma manifestação pacífica numa revolta nacional.
Mesmo com essas diferenças, existe um mecanismo comum. Em ambos os casos, comunidades políticas convencidas de que os canais institucionais estavam fechados foram mobilizadas por mensagens, símbolos e expectativas compartilhadas. Em ambos, a ausência de comando formal permitiu que pessoas reivindicassem a força da mobilização antes dos atos e negassem qualquer responsabilidade depois deles.
O 8 de janeiro não derrubou o governo. Fortaleceu o governo, o STF e todo o aparato que seus participantes diziam combater. Entregou aos adversários da direita as imagens, a emergência e a justificativa política necessárias para ampliar investigações, prisões, condenações e medidas de exceção. Uma parcela inteira do campo conservador passou a ser tratada sob suspeita permanente de golpismo.
O Nepal também produziu essa divisão entre quem colhe o resultado político e quem paga a conta nas prisões. A Al Jazeera relatou que alguns participantes do movimento se tornaram deputados ou ministros, enquanto manifestantes pobres e sem influência permaneceram presos. Segundo a ativista Aayush Basyal, os registros oficiais indicavam mais de 900 detidos por incêndios; extraoficialmente, o total poderia superar 1,6 mil. Os números são estimativas atribuídas à ativista, mas a divisão é conhecida: alguns transformam a revolta em mandato; outros ficam com o processo, a prisão e a família desfeita.
Isso não torna legítimos os abusos cometidos depois. Não transforma acusações coletivas em provas individualizadas. Não corrige problemas de competência, duplo grau, dosimetria, prisão preventiva ou devido processo. O Estado continua obrigado a distinguir quem depredou, quem invadiu, quem permaneceu do lado de fora, quem estava no acampamento e quem não participou de nada.
Defender essas pessoas não significa chamar depredadores de turistas. Condenar a depredação não significa concordar com toda denúncia, toda prisão e toda pena. Eu sustentei as duas posições desde o início porque elas não se anulam: cada acusado deve responder exclusivamente por sua conduta comprovada, e o Estado também precisa responder quando ultrapassa seus limites.
A experiência, porém, eliminou a desculpa da ingenuidade. Em 2022, alguém ainda poderia alegar que bordões, acampamentos e mensagens ambíguas não terminariam numa invasão. Depois de 8 de janeiro, o risco é conhecido. Depois do Nepal, também é conhecido o que ocorre quando uma mobilização sem comando é sequestrada por criminosos, radicais, provocadores ou grupos interessados em produzir a imagem de caos.
Se o 8 de janeiro foi usado como pretexto, a resposta racional é não oferecer outro pretexto. Muito menos um maior, com mortos e prédios em chamas.
Do “eu autorizo” à “dica de viagem”
Na noite de 23 de novembro de 2022, enquanto apoiadores de Jair Bolsonaro pressionavam as Forças Armadas e defendiam uma leitura intervencionista do artigo 142 da Constituição, Rodrigo Constantino publicou apenas duas palavras: “Eu autorizo”. A mensagem, postada por um comunicador com quase 1,5 milhão de seguidores, recebeu cerca de 90 mil curtidas e 15 mil compartilhamentos.
No próprio 8 de janeiro, Constantino adotou outra posição. Do exterior, condenou a repetição da invasão do Capitólio americano, afirmou ter lugar de fala para rejeitar vandalismo e violência e disse que aquilo era tudo de que a esquerda autoritária precisava. Depois, passou a sustentar que não houve tentativa de golpe e que o episódio foi usado pelo consórcio PT-STF como justificativa para perseguir inocentes.
A frase “Dica de viagem: Nepal”, isoladamente, não basta para imputar crime a seu autor. Mas também não foi publicada num guia de turismo. Surgiu no momento em que o país assistia ao Supremo adiar uma decisão sobre a investigação de um dos próprios ministros, diante de uma audiência que conhece perfeitamente o significado político da referência.
A ambiguidade permite duas operações simultâneas. O comunicador oferece à base a imagem de uma população que derrubou o governo e, quando confrontado com os mortos e os incêndios, pode dizer que falava apenas de povo na rua, renovação política ou provocação. Colhe a energia da palavra e rejeita o seu conteúdo.
Guilherme Kilter tentou resolver essa contradição dizendo que o “nosso Nepal” seria 2013, não 8 de janeiro. Mas, se a intenção é repetir junho de 2013, por que não dizer junho de 2013? O Nepal de 2025 não foi uma grande passeata pacífica. Foi o incêndio do Parlamento, a renúncia do governo, a morte de dezenas de pessoas e a presença do Exército nas ruas.
Não existe um Nepal higienizado, em que cada influenciador escolhe apenas a parte que lhe agrada. A palavra chega inteira à audiência.
A responsabilidade do comunicador
Depois do meu alerta, um perfil respondeu que cada pessoa deve responder pelos próprios atos e que não existe “incitação dos comunicadores”. Segundo esse raciocínio, responsabilizar quem estimula a escalada seria terceirizar a culpa do autor material.
A primeira afirmação está correta. Quem invade, agride, incendeia ou depreda conserva sua agência e deve responder pelo que fez. A segunda não decorre da primeira. Mais de uma pessoa pode contribuir para um mesmo resultado, em graus diferentes. Responsabilidade individual não significa causalidade solitária.
Comunicadores não controlam seus seguidores como peças num tabuleiro. Eles controlam as palavras que escolhem, os símbolos que legitimam e as interpretações que decidem reforçar ou corrigir. Uma pessoa com centenas de milhares de seguidores, sabe que sua mensagem é ouvida com atenção. Chega a uma comunidade emocionalmente mobilizada, convencida de que o sistema acabou e à procura de sinais de que chegou a hora de agir.
Isso produz responsabilidade moral e política antes mesmo de qualquer discussão criminal. Quem aumenta a temperatura ganha alcance, engajamento e prestígio. Quem estiver na rua assume o risco da polícia, do ferimento, da perda do emprego, do processo e da prisão. A distância física entre o emissor e o Brasil torna essa assimetria ainda mais evidente. Quantas mortes são aceitáveis para que nós tenhamos sucesso numa revolução?
No plano jurídico, é necessário ter o cuidado que faltou em muitos processos do 8 de janeiro. O artigo 286 do Código Penal pune a incitação pública à prática de crime. O artigo 29 estabelece a responsabilidade de quem concorre para uma infração na medida de sua culpabilidade. O artigo 31, por outro lado, impede que qualquer fala seja transformada automaticamente em crime: salvo previsão expressa, a instigação ou o auxílio não são puníveis se o delito não chega pelo menos à tentativa.
Escrever “Nepal” não prova, por si só, incitação. Seria incoerente denunciar o coletivismo penal do STF e depois pedir condenação automática de adversários ou antigos aliados por uma metáfora ambígua. Mas o fato de uma mensagem talvez não constituir crime não a transforma em conduta responsável. Algo pode ser legal, mas ao mesmo tempo imoral.
O teste é simples: ao perceber que seguidores interpretaram sua mensagem como autorização para a violência, o comunicador corrige essa leitura de forma clara? Condena invasões, incêndios, agressões e intervenção militar antes que algo aconteça? Ou mantém a névoa porque a névoa aumenta o alcance e preserva uma desculpa?
A revolução feita do exterior
Há algo especialmente grave quando a convocação vem de fora do país. Quem mora no exterior não está automaticamente imune às leis brasileiras. O artigo 6º do Código Penal considera praticado o crime tanto no lugar da ação quanto onde o resultado ocorreu ou deveria ocorrer. Isso elimina a fantasia de que a fronteira funciona como salvo-conduto absoluto.
A questão principal, contudo, é anterior ao direito penal. É a ausência de skin in the game. O influenciador que publica de Miami ou de qualquer outro lugar participa do ganho político e financeiro da radicalização. Seus seguidores permanecem no Brasil para enfrentar a consequência concreta.
Foi exatamente isso que ocorreu depois do 8 de janeiro. Pessoas comuns, muitas delas sem compreensão jurídica do que enfrentariam, passaram —ou ainda passam— meses ou anos presas. Famílias perderam renda, casas foram desfeitas e réus receberam penas superiores às aplicadas a criminosos violentos. Enquanto isso, parte dos comunicadores que ajudou a alimentar expectativas irreais simplesmente mudou de assunto ou passou a dizer que jamais pedira qualquer ato.
Não se trata de retirar a responsabilidade dos que foram a Brasília. Trata-se de recusar a confortável divisão do trabalho em que um grupo fabrica coragem retórica e outro oferece o próprio corpo. Quem pede uma ruptura precisa dizer quem comandará, quais são os limites, como impedirá a violência e por que não estará ao lado das pessoas que resolveu estimular. E, principalmente, precisa estar disposto a assumir a responsabilidade em caso de fracasso no seu plano.
Uma “revolução orgânica” é especialmente incapaz de responder a essas perguntas. Se não há liderança, ninguém negocia. Se ninguém negocia, ninguém encerra. Se ninguém encerra, o movimento passa a pertencer aos participantes mais violentos, às forças mais organizadas ou ao aparato estatal chamado para restaurar a ordem.
Foi isso que o Nepal mostrou. Os jovens abriram a crise. Outros grupos participaram da escalada. O Exército ocupou as ruas. Uma ex-presidente da Suprema Corte assumiu a transição. A legitimidade só voltou com a eleição. A espontaneidade derrubou o governo; não governou o dia seguinte.
Conservadorismo não se faz com fósforos
Sou conservador. Por isso mesmo, sou antirrevolucionário. Isso não significa aceitar censura, abuso judicial, corrupção ou concentração de poder em nome de uma ordem aparente. Significa compreender que instituições podem ser corrigidas, limitadas e substituídas sem entregar a sociedade à dinâmica de uma multidão que ninguém controla. Os exemplos são vários, desde os jacobinos da Revolução Francesa, aos bolcheviques na Rússia, sempre houve derramamento de sangue.
O conservador não julga um método apenas pela pureza de sua intenção. Pergunta quem morrerá, quem pagará, quem herdará os poderes excepcionais e que precedente será deixado para o próximo governo. Uma causa justa não purifica automaticamente os meios usados em seu nome.
Há muito a fazer fora da passividade. É possível investigar, documentar, publicar, formar associações, criar coalizões, protestar pacificamente, financiar defesas, disputar eleições, pressionar o Congresso, recorrer a cortes internacionais e registrar cada abuso para responsabilização futura. A resistência não violenta não é submissão. É a recusa a lutar no terreno escolhido pelo adversário.
O Brasil está a poucas semanas de uma eleição. A direita tem a possibilidade concreta de ampliar sua força no Senado e na Câmara, impor freios institucionais, disputar a Presidência e mudar a correlação de poder. Uma explosão de violência não aceleraria esse processo. Poderia suspendê-lo, contaminá-lo ou oferecer justificativa para medidas excepcionais às vésperas da votação. Sempre se pergunte: quem ganharia com isso?
Quem deseja reduzir o poder do STF deveria ser o primeiro a rejeitar qualquer ação que entregue à Corte nova emergência, novos inquéritos, novos pedidos de prisão e novo consenso social em torno da repressão. Quem afirma que o 8 de janeiro foi usado para construir uma máquina de perseguição não pode abastecer essa máquina novamente.
Revoluções não entregam o poder aos mais indignados. Entregam-no aos mais organizados, aos mais armados ou aos que já controlam a burocracia. A direita brasileira não controla o Exército, a Polícia Federal, os tribunais, a grande imprensa nem a máquina administrativa. Imaginar que controlará o resultado de um colapso nacional é menos uma estratégia que um delírio.
Se querem 2013, digam 2013
Manifestações de massa fazem parte da democracia. Ocupar pacificamente as ruas, cobrar autoridades, pressionar parlamentares e demonstrar força social não são crimes nem concessões do Estado. A direita não precisa pedir licença para protestar.
Mas deve dizer exatamente o que pretende. Um ato responsável tem objetivo, local, horário, lideranças identificáveis, equipes de segurança e limites públicos. Rejeita armas, invasões, agressões, incêndios e intervenção militar. Orienta os participantes a se retirar diante de escalada e corrige imediatamente qualquer mensagem que seja interpretada como licença para a violência.
Se a intenção é 2013, digam 2013. Se a intenção é vencer nas urnas, falem em voto. Se a intenção é eleger senadores capazes de limitar o Supremo, apresentem candidatos e propostas. “Nepalização” não acrescenta organização, maioria ou capacidade institucional. Acrescenta apenas a sugestão de ruptura.
Não se pode pedir a energia de uma revolução e depois alegar que se desejava apenas uma passeata. Não se pode usar prédios em chamas como metáfora e culpar exclusivamente o seguidor que entendeu a mensagem. Tampouco se pode exigir coragem de pessoas que continuarão no país enquanto o emissor acompanha as prisões pela internet.
O Brasil não enfrenta apenas um governo impopular ou um ministro abusivo. Vive sob uma juristocracia: um regime em que juízes não eleitos assumem funções políticas, sobrepõem-se às instituições eleitas e revestem medidas de exceção com aparência jurídica.
Uma explosão de violência não reduziria esse poder. Entregaria ao centro judicial a emergência de que ele precisa: medo social, alinhamento da imprensa, submissão do Congresso, cooperação das plataformas, novos inquéritos e apoio público para medidas que, em condições normais, seriam rejeitadas.
Passei anos defendendo a perseguição às vítimas do 8 de janeiro. É pelo mesmo motivo que condeno a “Nepalização”. Quero evitar novos presos, novas famílias destruídas e uma nova emergência usada para ampliar os poderes que denunciamos.
A direita que não aprendeu isso depois de 8 de janeiro talvez nunca tenha compreendido o que aconteceu. A que aprendeu e mesmo assim repete o jogo já não pode alegar inocência.
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