O dossiê secreto que embasou a perseguição contra os jornalistas da Vaza Toga
Dossiê apócrifo, hospedado em infraestrutura ligada à governança digital, sustentou pedido de investigação penal no STF
A denúncia criminal apresentada diretamente ao Supremo Tribunal Federal contra jornalistas envolvidos nas revelações da Vaza Toga foi sustentada por um dossiê apócrifo, sem autoria identificada e sem metodologia explicitada. O material — anexado à petição protocolada em 25 de outubro de 2025 — reúne capturas de tela, metadados e arquivos organizados por códigos e datas para tentar caracterizar supostos “ataques coordenados” e justificar a abertura de investigação penal contra profissionais da imprensa.
A iniciativa partiu da jornalista Letícia Sallorenzo, que pediu a inclusão de mim, David Ágape, e de Eli Vieira — além do ex-assessor Eduardo Tagliaferro — em inquéritos conduzidos pelo STF, como o das “milícias digitais”. As acusações são amplas e genéricas, indo de crimes contra a honra a associação criminosa e até abolição violenta do Estado Democrático de Direito, apesar de a peça não apontar qualquer ato concreto praticado pelos jornalistas nem demonstrar coordenação, incitação ou chamada à violência.
A representação de Sallorenzo foi uma reação às reportagens da série Vaza Toga (2 e 4), que expuseram práticas opacas no combate à chamada “desinformação”, a atuação de colaboradores informais no entorno do Tribunal Superior Eleitoral e o uso do aparato judicial para monitorar e silenciar críticos durante o ciclo eleitoral de 2022. Em vez de contestar os fatos revelados, a denúncia desloca o foco para os repórteres, tentando converter repercussão pública em indício penal.
Mesmo sem provas individualizadas, a petição foi distribuída por “prevenção” ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes. O expediente — recorrer diretamente ao ministro, sem sorteio — repete estratégias já usadas em outros casos, como o do jornalista Allan dos Santos.
O dossiê
O núcleo da denúncia enviada ao STF não é um fato isolado nem uma publicação específica, mas um dossiê apresentado como se fosse prova técnica de uma ação coordenada.
O material reúne prints de postagens, comentários de terceiros — incluindo dos deputados federais Gustavo Gayer e Nikolas Ferreira —, listas de perfis, links e arquivos com metadados, organizados por códigos e datas. A estrutura sugere monitoramento contínuo e catalogação sistemática de atividades digitais pelo menos desde 9 setembro de 2025, mas a denúncia não informa quem coletou os dados, com quais critérios, em que período nem sob qual autorização.
Nenhum dos elementos atribuídos aos jornalistas configura incitação à violência, coordenação de ataques ou chamada à ação. Pelo contrário, eles nem ao menos tentaram refutar as graves denúncias das reportagens, incluindo apenas um tuíte meu divulgando a Vaza Toga 4 publicada em A Investigação.
O que há são reações espontâneas de terceiros reunidas retrospectivamente para sustentar a narrativa de “milícia digital”. O material também ignora manifestações públicas dos próprios repórteres condenando ataques pessoais e defendendo crítica responsável.
O que confere gravidade adicional ao caso é a origem do dossiê. Após termos acesso à íntegra da denúncia, verificamos que os arquivos estavam hospedados em uma pasta do Google Drive vinculada a um e-mail institucional do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).
Não se trata de um arquivo pontual anexado ao processo, mas de um repositório organizado, com estrutura padronizada e sinais de uso continuado. A denúncia não esclarece quem criou a pasta, quem alimentou os arquivos nem por que um material que serviria de base para acusações penais estava publicamente acessível antes do ajuizamento.




A pasta, criada pelo usuário Otávio Gomes, pesquisador do instituto, permaneceu acessível ao público até a repercussão do caso, quando teve o acesso subitamente restringido, passando a exigir autorização.
Durante a produção desta reportagem, enviamos questionamentos a Otávio Gomes e ao ITs Rio para esclarecer a origem do dossiê, e o uso da infraestrutura associada ao instituto. Foram enviadas perguntas objetivas sobre titularidade da conta, finalidade do material, vínculo com projetos institucionais, motivo da restrição de acesso e eventual apuração interna. Até o fechamento desta reportagem, não houve qualquer manifestação.
Pelo contrário, Otávio também privou suas redes sociais que até então estavam públicas.
Como atua o ITS Rio
O ITS Rio se apresenta como uma organização civil dedicada à pesquisa sobre os impactos da tecnologia na sociedade. Na prática, atua como um polo de formulação de políticas públicas, articulando academia, governos, setor privado e organismos internacionais em temas como regulação de plataformas, desinformação, inteligência artificial, proteção de dados e governança da internet.
O instituto é apoiado por fundações privadas nacionais e internacionais, além de entidades públicas estrangeiras e projetos associados à União Europeia. Também mantém parcerias com grandes empresas de tecnologia, como Google, Meta, Amazon e Microsoft, e colabora com universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior.


Não há ilegalidade nisso por si só. O ponto central é que instituições com esse perfil influenciam diretamente o desenho de políticas públicas e ajudam a moldar narrativas oficiais sobre “desinformação”, “discurso de ódio” e “ameaças à democracia”. Em diversos países, esse mesmo ecossistema tem sido criticado por diluir as fronteiras entre pesquisa acadêmica e militância regulatória, frequentemente sem transparência adequada sobre métodos e critérios.
Essas dúvidas se agravam porque o dossiê foi usado para pedir a inclusão de jornalistas em inquéritos sigilosos conduzidos pelo próprio ministro alvo das reportagens que motivaram a reação. Um compilado de origem não esclarecida, hospedado em infraestrutura ligada a um think tank influente, passou a sustentar uma iniciativa penal no topo do Judiciário contra repórteres que investigaram o Judiciário.
Vaza Toga 4: A Bruxa, o Infiltrado e o Delator
Nossa reportagem teve acesso exclusivo a conversas de WhatsApp entre Eduardo Tagliaferro — então chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do TSE — e a jornalista Letícia Sallorenzo, conhecida como “Bruxa”. As mensagens expõem como, em agosto de 2022, durante o auge da campanha eleitoral, dados privados de empresários ligados …







Assédio judicial contra jornalistas, internautas e opositores políticos ao regime PT-STF.
Os limites já não existem aos poderosos, esses fazem tudo e não respondem por nada!