Make the Americas Great Again: a nova estratégia de Trump para o Hemisfério Ocidental
Por meio da National Security Strategy de 2025, Washington assume a disputa geopolítica nas Américas, testa limtes na Venezuela e coloca o Brasil diante de escolhas inevitáveis
Em novembro de 2025, a administração de Donald Trump publicou a nova National Security Strategy (NSS) dos Estados Unidos. O documento, divulgado oficialmente em dezembro, é o principal guia da política externa e de defesa americana. Ele estabelece prioridades, define limites e oferece o enquadramento político e jurídico para decisões que vão do comércio ao uso da força. Quando Washington decide agir de maneira mais assertiva no exterior, é ali que costuma estar o fundamento.
A NSS de 2025 marca uma ruptura clara com as abordagens adotadas no pós-Guerra Fria. O texto abandona a pretensão de sustentar uma ordem global difusa e assume, sem rodeios — e sem constrangimento —, uma visão America First. Trump atribui às elites políticas anteriores o esvaziamento da base industrial americana, a sobrecarga de compromissos internacionais e a abertura de espaço para a influência de adversários estratégicos, especialmente a China.
É nesse contexto que surge o chamado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Formulada em 1823, a Doutrina Monroe estabelecia que o Hemisfério Ocidental não deveria ser objeto de interferência de potências externas, sobretudo europeias, e funcionou historicamente como justificativa para a primazia dos Estados Unidos nas Américas. Ao longo do século XX, esse princípio serviu tanto para conter rivais quanto para legitimar intervenções diretas ou indiretas na região.
O que Trump faz agora é atualizar essa lógica para o século XXI. A NSS reafirma a preeminência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental como condição da própria segurança nacional, vinculando essa posição ao controle da migração, ao combate ao crime transnacional e ao acesso a recursos e infraestruturas consideradas estratégicas. Potências extra-hemisféricas deixam de ser tratadas como concorrentes legítimas e passam a ser enquadradas como riscos.
Nesse redesenho, o Hemisfério Ocidental deixa de ser periferia e passa a ocupar o topo da lista de interesses vitais dos EUA — acima da Ásia e da Europa. Não por idealismo ou afinidade política, mas por proximidade geográfica, fluxos migratórios, rotas logísticas, cadeias produtivas e acesso a recursos estratégicos. Fora das Américas, Washington reduz ambições de liderança global permanente e passa a atuar de forma pragmática, econômica e dissuasória, transferindo a parceiros regionais a maior parte do custo político e militar.



A partir dessa mudança de eixo, a estratégia americana passa a reorganizar relações políticas, econômicas e de segurança em toda a região. E isso levanta uma questão inevitável: como essa nova doutrina afeta o Brasil, o maior país da América Latina e um dos principais atores do Hemisfério Ocidental?
Como Washington pretende agir
A estratégia americana para as Américas parte da premissa de que a segurança nacional começa no entorno imediato. A NSS deixa claro que os Estados Unidos não pretendem mais tolerar a expansão de potências extra-hemisféricas em áreas consideradas sensíveis, nem a consolidação de Estados capturados pelo crime organizado em seu entorno geográfico.
Para isso, Washington combina pressão econômica, reorganização militar e diplomacia comercial. A Doutrina Monroe é resgatada não como símbolo histórico, mas como política atual. A preeminência americana no hemisfério passa a ser tratada como condição necessária da própria segurança e prosperidade dos EUA. Infraestrutura crítica, energia, telecomunicações, portos e minerais deixam de ser assuntos meramente econômicos e passam a integrar o cálculo estratégico.
Ao mesmo tempo, o documento de 33 páginas redefine a forma de lidar com instabilidade regional. Cartéis, organizações criminosas transnacionais e regimes associados a essas redes são enquadrados como ameaças hemisféricas. A NSS abandona explicitamente a lógica de que o combate a esses grupos deve se limitar a ferramentas policiais ou judiciais, abrindo espaço para respostas mais duras, inclusive com emprego de força letal.
A ação recente dos EUA para capturar Nicolás Maduro, realizada em 3 de janeiro de 2026, com uma operação conduzida por forças especiais americanas em Caracas, se encaixa de forma direta na lógica apresentada pela NSS. Formalmente, a iniciativa foi justificada como parte do combate ao narcotráfico e ao chamado narco-terrorismo, com base na acusação de que o regime venezuelano estaria integrado a redes criminosas transnacionais que operam rotas estratégicas, alimentam fluxos migratórios e corroem a estabilidade regional.
Mais do que o caso venezuelano em si, o episódio funciona como demonstração prática da nova doutrina. A mensagem é que regimes considerados capturados pelo crime ou alinhados a potências rivais podem ser tratados como problemas de segurança continental. A Venezuela surge, assim, como o primeiro teste visível de uma estratégia que privilegia dissuasão ativa, reposicionamento militar e exclusão de atores externos do entorno americano.
Essa estratégia já havia sido antecipada em outubro de 2025. No programa Geoeconomia, do canal Estúdio Quinto Elemento, Arthur Machado explicou que a ofensiva de Donald Trump contra os cartéis não se limita ao combate às drogas, mas integra uma lógica geopolítica mais ampla. Para ele, o narcotráfico tornou-se uma indústria transnacional conectada ao sistema financeiro, à logística global e a Estados capturados, funcionando como instrumento indireto de poder. Ao enquadrar os cartéis como ameaça à segurança nacional, Trump busca romper esse circuito — que envolve bancos, governos latino-americanos e a influência chinesa — deslocando o foco da repressão do nível policial para o centro político, financeiro e estratégico do problema.
Não se trata de uma volta automática ao intervencionismo clássico, mas de um modelo mais pragmático: menos ocupação direta, mais coerção estrutural, mais uso combinado de força, economia e alianças regionais. O reforço da presença militar no Caribe, o redesenho das cadeias produtivas e o uso explícito de instrumentos comerciais caminham juntos.
O Brasil no novo tabuleiro
Embora o Brasil não seja citado nominalmente na NSS, os efeitos sobre o país são evidentes. Como maior economia da América Latina, grande produtor agrícola e detentor de reservas relevantes de minerais críticos, o Brasil se torna parceiro estratégico natural — e, ao mesmo tempo, alvo de pressão.
A política externa equidistante, que permitiu ao país aprofundar laços com a China enquanto tentava manter boas relações com os EUA, passa a ter custo crescente. Decisões antes tratadas como técnicas — concessões portuárias, leilões de infraestrutura, escolhas tecnológicas, políticas energéticas — entram no radar estratégico americano.
Há oportunidades reais. A decisão dos Estados Unidos de trazer cadeias produtivas para mais perto de seu território pode atrair investimentos em mineração, energia e indústria no Brasil, reduzir a dependência brasileira do mercado chinês e ampliar o acesso aos EUA. A cooperação em segurança e tecnologia também pode fortalecer o país em áreas como proteção de fronteiras e combate ao crime organizado.
Segundo Luciano de Almeida Freitas, em artigo publicado em 15 de dezembro pelo escritório Carlton Fields, o Brasil reúne o maior potencial para aprofundar essa nova fase de cooperação com os Estados Unidos. Para Freitas, o momento abre uma janela rara para empresas americanas ampliarem sua presença no país com apoio direto de instrumentos do próprio governo dos EUA, como o financiamento da International Development Finance Corporation (DFC) e do Export-Import Bank of the United States (EXIM). Esse tipo de apoio ajuda a reduzir riscos, facilita parcerias com empresas brasileiras e acelera projetos em áreas consideradas estratégicas.
O autor pondera, no entanto, que fazer negócios no Brasil exige conhecer as regras do jogo, lidar com burocracia, entender o ambiente político e contar com parceiros locais que saibam operar nesse cenário. Sem isso, mesmo boas oportunidades tendem a travar.
Freitas conclui que a NSS de 2025 não apenas reorienta a política externa americana, mas reposiciona o Brasil no centro da disputa geopolítica hemisférica. Para Washington, aprofundar a interdependência econômica com o país faz parte de um redesenho estratégico mais amplo. Para o Brasil, isso cria oportunidades concretas — desde que o país esteja disposto a fazer escolhas e alinhar interesses em um ambiente de competição aberta entre grandes potências.
Escolhendo lado no novo jogo
A National Security Strategy de 2025 torna explícita uma disputa geopolítica que já estava em curso. Os Estados Unidos passam a fazer de maneira aberta aquilo que a China vem praticando há anos no Brasil e na América Latina ao usar comércio, investimentos, infraestrutura e influência política como instrumentos de poder.
Para o Brasil, o cenário é de escolha — ainda mais em um ano eleitoral. Um alinhamento maior com os Estados Unidos pode abrir caminho para investimentos, ampliar o acesso a mercados e integrar o país a cadeias produtivas mais sofisticadas, com potencial real de prosperidade econômica.
Por outro lado, a manutenção da política petista de alinhamento prioritário com a China e outros regimes autoritários empurra o Brasil para uma posição periférica na reorganização geopolítica do Ocidente. O custo maior não é o confronto — é a irrelevância estratégica, com decisões centrais passando a ser tomadas sem o país à mesa.
O novo ambiente hemisférico reduz o espaço para equilíbrios silenciosos. Não escolher também é uma escolha — e, desta vez, o custo da indecisão tende a ser alto.




