Três dias depois de lançar oficialmente sua quinta candidatura à Presidência da República, Rui Costa Pimenta teve a casa invadida pela Polícia Federal. Era terça-feira, seis da manhã em ponto, ainda escuro. Os agentes arrombaram o portão, entraram armados e levaram computadores — devolvidos depois — e o celular do presidente do PCO, que segue apreendido. A ação integra a Operação Causa Própria, batizada assim pela PF em referência ao próprio nome do partido, e apura suspeita de desvio de recursos do fundo partidário e do fundo eleitoral para empresas ligadas a militantes, incluindo um genro de Pimenta.
Recebemos Pimenta para uma conversa longa, sem cortes na argumentação, sobre o que ele chama de farsa e a PF chama de investigação legítima. O resultado é uma entrevista dividida entre a defesa técnica do caso, um histórico raramente contado sobre a relação do PCO com o PT e com Lula, e um bloco final dedicado inteiramente à liberdade de expressão — tema que, segundo Pimenta, “é a pedra angular dos direitos políticos”.
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O relato da busca
Pimenta descreve a operação como um método que compara ao da Gestapo: “seis horas em ponto, tava tudo escuro ainda, era madrugada”. Ele conta que abriu a porta, recebeu o mandado, e que os policiais entraram armados porque tinham informação — segundo ele, falsa — de que haveria uma arma na casa. “Falei: ‘olha, tô desarmado aqui’, levantei a camisa, não tem nada.” Ao final, um dos policiais teria comentado que a equipe queria “pegar o pessoal de surpresa” e “ver onde é que a pessoa mora” — e se surpreendeu, segundo Pimenta, ao constatar que ele vive “uma vida de classe média” no bairro do Jabaquara, sem sinal de enriquecimento.
O ponto mais específico levantado por Pimenta na entrevista é uma peça do relatório da PF que, segundo ele, classificou uma devolução de R$ 100.874,39 feita pelo Facebook ao PCO, em agosto de 2022, como financiamento ilegal de campanha por parte da própria empresa. Pimenta afirma que o valor era simplesmente o estorno de um impulsionamento de anúncios contratado e não totalmente utilizado — dinheiro que já era do partido e apenas retornou à conta. O Diário Causa Operária publicou, dias depois desta entrevista, uma reportagem detalhando o número do relatório da PF citado (nº 2522309/2023) e a data exata da transação, reforçando a versão do partido.
Outros pontos da entrevista
Um dos pontos menos conhecidos da entrevista é a cronologia real do apoio do PCO a Lula. Pimenta desfaz a ideia de uma aliança histórica: o partido apoiou Lula em 1989, quando ainda fazia parte do PT, mas rompeu com o petismo pouco depois e não apoiou nem Lula nem Dilma em nenhuma das eleições seguintes — nem em primeiro, nem em segundo turno. O apoio só voltou em 2018, durante a prisão de Lula, como parte de uma campanha contra o que o PCO chamou de golpe de 2016. Para 2026, o partido rompeu de novo: “à medida que o PT chegou ao governo, o PT passou de partido perseguido a partido perseguidor dos outros”, diz Pimenta, referindo-se à proximidade entre Lula e Alexandre de Moraes.
Questionado sobre quantos candidatos o PCO pretende eleger em 2026, Pimenta é direto: nenhum. “Nenhum partido que tá na nossa condição vai eleger candidato nessa eleição”, afirma, atribuindo o resultado à desigualdade nos fundos públicos — o PCO recebeu R$ 3,4 milhões para a campanha nacional, enquanto outras siglas somam quase R$ 1,8 bilhão. Ele defende um sistema alternativo: tempo igual de TV, equipe técnica e passagens aéreas fornecidas pelo Estado a todos os partidos, em vez do modelo atual de fundo partidário.
Diferente do tom de negação total, Pimenta reconhece, quando perguntado sobre o histórico de contas não prestadas do PCO — incluindo o bloqueio do TRE-PR em 2022 e a suspensão de acesso ao Fundo Eleitoral em 2024 —, que “o nosso trabalho burocrático ele tem falhas, não vou negar isso”. Ele atribui o problema à falta de recursos para contratar profissionais especializados e à intransigência da Justiça Eleitoral em aceitar correções, mas nega que isso configure crime.
Pimenta afirma ser favorável à anistia dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, classificando as condenações por golpe de estado e organização criminosa armada como “abusivas” — argumentando que nenhuma arma foi apresentada como prova. Ele encerra a entrevista falando sobre a carta anticensura que assinou, comprometendo-se a não propor novas leis de restrição ao discurso, e critica o que chama de abandono, pela esquerda brasileira, da bandeira histórica da liberdade de expressão: “eu tenho visto que a conduta da direita é bem mais democrática nesse sentido que a da esquerda. É incrível dizer isso, mas é verdade.”



