CPAC Texas: rancheiros americanos acusam JBS de usar propina brasileira para dominar o mercado de carne dos EUA
Rancheiros apontam domínio de quatro empresas no mercado e defendem rotulagem obrigatória da carne
No palco principal do CPAC USA 2026, rancheiros americanos afirmaram que a JBS — maior processadora de carne do mundo, controlada pelos irmãos brasileiros Joesley e Wesley Batista — conquistou o mercado americano de proteína animal com capital obtido por corrupção.
A acusação não é nova e tem respaldo em investigações e acordos firmados com órgãos americanos. O que muda é o contexto: com uma investigação antitruste em curso, um projeto de lei no Senado para limitar a concentração no setor e a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, recém-reunida com a coalizão de produtores, o tema ganhou tração política.
No painel “CPAC Yellowstone”, os rancheiros pressionaram o Congresso por duas medidas centrais: a volta da rotulagem obrigatória de origem da carne e ações para reduzir a concentração de mercado, que, segundo eles, está comprimindo a renda do produtor e acelerando a saída de pecuaristas da atividade.
O painel reuniu AJ Richards, fundador da plataforma From The Farm, a pecuarista e cantora country Clare Dunn, a Dra. Brooke Miller, membro do conselho do CPAC, e foi conduzido pela apresentadora Fanchon Stinger.
A denúncia central
Quatro empresas controlam 85% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos: JBS, Tyson, Cargill e National Beef. Em 1980, as quatro maiores do setor controlavam 36%. A JBS entrou no mercado americano em 2007, com a compra da Swift, e ampliou sua presença em 2009 ao adquirir a Pilgrim’s Pride, em operações financiadas pelo BNDES, que se tornou um dos principais acionistas da companhia.
“JBS e National Beef são empresas de origem brasileira. São estrangeiras. No caso da JBS, houve pagamento de propina a autoridades brasileiras para obter o capital necessário para expandir no mercado”, afirmou AJ Richards.
Em 2020, a SEC formalizou acusações contra os irmãos Batista por violações da Foreign Corrupt Practices Act. O esquema envolveu cerca de US$150 milhões em propinas a um ex-ministro da Fazenda do Brasil para viabilizar recursos do BNDES. A J&F Investimentos pagou US$256 milhões ao Departamento de Justiça para encerrar a investigação criminal. A empresa também admitiu o pagamento de propinas a mais de 1,8 mil políticos brasileiros ao longo de uma década.
"O lobby da carne bovina é o único que controla o Congresso, e faz pressão para dominar leis como a Lei dos Frigoríficos e Currais. O produtor americano é a última linha de defesa da verdadeira liberdade entre todos nós."
— AJ Richards
A rotulagem
Em 2015, o Congresso americano revogou o Mandatory Country of Origin Labeling (MCOOL), que obrigava supermercados a informar onde o boi nasceu, foi criado e abatido. A decisão veio após a autorização da Organização Mundial do Comércio para que Canadá e México aplicassem mais de US$1 bilhão em tarifas de retaliação contra os EUA.
Sem a exigência, carne importada pode ser misturada à americana e vendida sem distinção. Segundo os participantes, a diferença de custo chega a US$0,57 por libra, o que representa uma vantagem bilionária anual para processadores que operam globalmente.
“Estamos nos níveis mais baixos [de rebanho bovino americano] desde a década de 1950, com cerca de 86 milhões de cabeças para alimentar 320 milhões de pessoas. Hoje, dependemos de importações”, afirmou Brooke Miller.
A fatia do rancheiro em cada dólar gasto com carne caiu de 70 centavos em 1970 para cerca de 37 centavos atualmente. A idade média do pecuarista supera os 58 anos. “É uma das atividades com maior taxa de suicídio no país, porque o sistema joga contra o produtor”, disse Clare Dunn.
Demandas do setor e resposta em curso
Os rancheiros defendem duas medidas: restabelecer o MCOOL como exigência legal e reduzir a concentração do setor. Em novembro de 2025, o Departamento de Justiça abriu uma investigação antitruste contra os quatro grandes processadores por suposta manipulação de preços — coordenação no ritmo de abate e volume de compra que derruba o preço pago ao produtor enquanto eleva o preço cobrado ao consumidor, capturando a margem nos dois lados. Não é a primeira vez: em 2020, durante o primeiro mandato de Trump, o DOJ já investigou as mesmas quatro empresas após os preços do boi colapsarem durante a pandemia enquanto a carne subia no varejo. Aquela investigação foi encerrada sem nenhuma punição ou reforma.
Em março de 2026, o Senado apresentou um projeto para impedir que uma mesma empresa concentre múltiplos segmentos da cadeia de proteína animal. O contexto político, no entanto, é ambíguo: no início de 2025, uma empresa do grupo JBS fez a maior doação individual ao comitê de posse de Trump — US$5 milhões. No mesmo período, a JBS dobrou seus gastos com lobbying em Washington e estreou na Bolsa de Nova York. A mesma empresa denunciada no palco do CPAC é financiadora direta da administração que deveria investigá-la.
A CPAC Ranchers Coalition é uma frente organizada pelo próprio CPAC para articular produtores rurais americanos em torno de pautas legislativas e de política agrícola. Reúne pecuaristas, ativistas do setor e especialistas em política agropecuária, e atua como ponte entre o movimento conservador e o campo americano — levando demandas diretamente a congressistas e ao Executivo.
Dias antes do CPAC, a coalizão se reuniu com a secretária de Agricultura Brooke Rollins no USDA para discutir a volta do MCOOL e medidas antimonopólio no setor de carne bovina. A reunião foi descrita pelos participantes como produtiva, com sinais de alinhamento da administração com a pauta dos produtores independentes.
AJ Richards encerrou com um apelo direto ao consumidor: “Onde você gasta seu dinheiro determina o futuro do sistema alimentar.”



