CPAC Texas: iranianas que perderam um olho cada durante os protestos agradecem Trump pelos bombardeios ao Irã
Painel no segundo dia do evento reuniu vítimas da repressão iraniana e terminou com agradecimentos a Trump e manifestação pró-Reza Pahlavi
No segundo dia de CPAC Texas, em Grapevine, o palco principal abriu a manhã com um painel que misturou relato pessoal e posicionamento político sobre o Irã. Duas iranianas feridas durante os protestos de 2022 — Mersedeh Shahinkar e Raheleh Amiri — subiram ao palco com próteses oculares e descreveram como perderam a visão após serem baleadas no rosto durante manifestações do movimento Woman Life Freedom. Segundo relataram, agentes do regime miravam deliberadamente nos olhos para identificar e capturar manifestantes depois.
Mersedeh contou que foi escondida por médicos enquanto integrantes do Basij — milícia paramilitar iraniana — a procuravam dentro do hospital. Após a alta, sua casa foi alvo das forças de segurança, e ela deixou o país com a filha de 9 anos, passando pela Turquia e Alemanha até chegar aos Estados Unidos. Ao final, agradeceu a Donald Trump e a Benjamin Netanyahu pelas ações contra o regime iraniano, sendo aplaudida de pé.
Raheleh relatou que foi atingida enquanto caminhava sem hijab, presa depois e impedida de estudar ou trabalhar. Disse que deixar o Irã significou abandonar parte da própria vida. Na avaliação dela, o regime está mais fraco e a população aguarda uma nova oportunidade de protesto, mencionando a liderança de Reza Pahlavi.
A terceira participante do painel, a Dra. Hiba Wallace, conselheira da organização United Against Nuclear Iran (UANI), forneceu o enquadramento geopolítico. Wallace disse que a ideologia do regime é construída sobre "Death to America, Death to Israel" — não como slogan, mas como doutrina ensinada a crianças de seis, sete anos desde o início da vida escolar. E defendeu a Operação Epic Fury com uma frase que resumiu o posicionamento de toda a sessão: "President Trump did not start a war. President Trump is ending a war after 47 years." Acrescentou que os ataques americanos criam a janela de oportunidade para que o próprio povo iraniano retome o país — que não é trabalho americano fazer a revolução, mas garantir as condições para ela.
O debate também incluiu críticas à cobertura internacional. Questionada sobre imagens exibidas pela CNN com aparente apoio popular ao regime, Mersedeh afirmou que se tratavam de forças controladas pelo governo, provocando vaias da plateia à emissora.
Os cartazes de Reza Pahlavi
Ao final do painel, testemunhamos uma manifestação com cartazes impressos, cantos coordenados e emoção coletiva à beira do choro. Os participantes — iranianos da diáspora, em sua maioria — levantavam fotos de Reza Pahlavi com a inscrição “Prince of Iran” enquanto gritavam agradecimentos a Trump.
Para quem segurava os cartazes, Reza Pahlavi é o herdeiro legítimo de um Irã sem aiatolás. Mas há divisão real dentro da própria diáspora: parte dela questiona se Pahlavi representa uma alternativa democrática genuína ou uma nostalgia monárquica instrumentalizada por interesses neoconservadores em Washington.
Em 1979, a Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini derrubou o Xá Mohammad Reza Pahlavi, encerrando 2.500 anos de monarquia persa e instaurando a República Islâmica do Irã. O Xá morreu no exílio em 1980. Seu filho, Reza Pahlavi, tinha 18 anos quando deixou o país. Cresceu nos Estados Unidos e, desde então, atua como uma das principais vozes da oposição iraniana no exílio — sem aparato político ou militar, mas com peso simbólico.
O regime se estruturou sobre dois pilares: o líder supremo — cargo vitalício ocupado por Khomeini e, desde 1989, por Ali Khamenei — e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), força que combina poder militar, econômico e ideológico. Ao longo das últimas décadas, o IRGC expandiu sua influência para além das fronteiras iranianas, armando o Hezbollah, financiando milícias no Iraque, no Iêmen e na Síria e participando diretamente do programa nuclear do país.
Esse arranjo foi abalado em 28 de fevereiro de 2026, quando um ataque israelense atingiu o complexo residencial de Khamenei em Teerã. O aiatolá morreu aos 86 anos, após 35 anos no poder. No mesmo ataque, foram mortos o comandante do IRGC, general Mohammad Pakpour, o chefe do Estado-Maior, general Abdolim Mavi, e o secretário do Conselho de Defesa, Ali Shamkhani. Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá e apontado como sucessor, escapou por segundos — havia saído para o jardim quando o míssil caiu. Saiu ferido.
A ordem partiu de Donald Trump, a bordo do Air Force One na noite anterior. O objetivo declarado pela Casa Branca foi “eliminar a ameaça nuclear iminente” e “esmagar o regime após 47 anos de agressão”. Em 3 de março, Israel bombardeou a sede da Assembleia de Peritos — o órgão constitucional responsável por escolher o novo líder supremo. Mesmo com o edifício destruído, a Assembleia se reuniu de forma dispersa e em 8 de março nomeou Mojtaba como terceiro líder supremo da República Islâmica. Israel declarou imediatamente que ele era alvo. Trump classificou a escolha como “inaceitável”.
Desde então, Mojtaba não apareceu em público nenhuma vez. Em 15 de março, Trump disse ter ouvido que o novo líder “não está vivo” — mas tratou a informação como rumor. Se o regime ainda está de pé, está de pé sem rosto.
Para a oposição iraniana da diáspora, a morte de Khamenei não foi interpretada como intervenção estrangeira — foi o golpe que esperavam há décadas. Às vésperas do CPAC, em 24 de março, o governo Trump apresentou ao Irã um plano de cessar-fogo com 15 pontos. Enquanto no palco, em Grapevine, vítimas do regime agradeciam os bombardeios, negociadores americanos e iranianos avançavam, em paralelo, em propostas para encerrar o conflito.






