AmericaFest: 8 lições do Turning Point de Charlie Kirk para a direita brasileira
O que o maior evento conservador jovem dos EUA ensina sobre organização, cultura e formação política de longo prazo.
Entre os dias 17 e 21 de dezembro de 2025, A Investigação esteve no AmericaFest, evento anual organizado pelo Turning Point USA, em Phoenix, no Arizona. Foram cinco dias intensos de palestras, networking e observação de como a direita conservadora americana se organiza, comunica e forma quadros. Fui ao evento ao lado de Allan dos Santos, jornalista brasileiro exilado nos Estados Unidos, que generosamente viabilizou os ingressos para nós. O convite foi concedido via TPUSA Rise, braço do Turning Point voltado ao público negro e latino, que realizou painéis específicos em um hotel em Tempe, no Arizona.
O AmericaFest aconteceu no Phoenix Convention Center. O local é monumental. O palco principal comporta algo em torno de 30 mil pessoas, com estrutura de som, luz e telões comparável à de grandes shows internacionais. Paralelamente, o evento se espalha por auditórios menores, onde ocorrem painéis temáticos, debates setoriais e treinamentos.
Há ainda, por todo o espaço, dezenas de estandes de veículos de imprensa conservadores, como Daily Wire, Fox News, Blaze Media e OAN, além de fundações, think tanks e organizações militantes: grupos pró-vida e de desenvolvimento masculino, entidades contra a doutrinação ideológica nas escolas, defensores da liberdade acadêmica, associações religiosas cristãs e judaicas, empresas de suplementos e saúde, além de instituições ligadas ao aparato estatal americano — ICE, Homeland Security e até estandes com veículos blindados expostos ao público.
O evento reuniu o núcleo duro da direita conservadora dos Estados Unidos. Passaram pelo palco nomes como J. D. Vance, Donald Trump Jr., Tulsi Gabbard, Vivek Ramaswamy, Tucker Carlson, Ben Shapiro, Glenn Beck, Rob Schneider e Steve Bannon. Uma das surpresas desta edição foi a aparição da cantora Nicki Minaj que, no último dia do evento, subiu ao palco principal ao lado de Erika Kirk, viúva de Charlie Kirk e atual líder do TPUSA. A presença da rapper demonstra o esforço do Turning Point em dialogar com públicos que tradicionalmente não orbitavam a direita institucional.
O AmericaFest acabou assumindo também o papel de um grande memorial ao legado de Charlie Kirk, fundador do Turning Point, assassinado em 10 de setembro durante um evento da organização em Utah. O autor do ataque, Tyler Robinson, foi preso e responde por homicídio qualificado. À época, vieram a público informações de que ele mantinha um relacionamento com uma mulher trans e havia feito declarações relacionadas a temas de identidade de gênero.
Em Phoenix, a presença de Kirk se impunha de forma quase constante. Sua imagem aparecia nos telões, seu nome era reiteradamente mencionado nos discursos, e sua trajetória servia de fio condutor para boa parte da programação. O AmericaFest deixou de ser apenas um grande encontro político e passou a operar como espaço de consolidação do projeto que ele construiu: uma direita jovem, organizada, assumidamente confessional e preparada para a disputa cultural de longo prazo.
Embora ao longo das palestras tenham surgido diversas tensões internas — rachas na direita, embates públicos sobre acusações de antissemitismo e disputas em torno do papel dos Estados Unidos na relação com Israel —, nada disso foi suficiente para apagar o brilho do evento nem reduzir seu impacto. Para quem observa a partir do Brasil, o AmericaFest funciona quase como um manual prático do que a direita brasileira ainda não conseguiu construir.
As principais lições observadas no AmericaFest foram:
Ativismo jovem em escolas e universidades;
Eventos anuais massivos para unir e dar identidade ao movimento;
Alcance de minorias e comunidades sub-representadas;
Integração da fé e dos valores cristãos no centro da mensagem;
Debate aberto de divisões internas e defesa da liberdade de expressão;
Primazia da cultura sobre a política;
Espaço para iniciativas não políticas e construção de ecossistema social;
Mobilização de base e organização permanente de voluntários.
Lição 1 – Invista no ativismo jovem em escolas e universidades
A principal lição deixada por Charlie Kirk talvez seja a mais simples — e a mais ignorada pela direita brasileira: a disputa política começa na juventude, dentro das escolas e universidades.
Quando fundou a Turning Point USA, em 2012, Kirk tinha apenas 18 anos. Ainda assim, identificou com clareza onde estava o verdadeiro campo de batalha cultural nos Estados Unidos: os campi universitários, já amplamente dominados por professores, centros acadêmicos e organizações alinhadas à esquerda. Em vez de atacar esse ambiente de fora, decidiu ocupá-lo por dentro.
A estratégia foi criar capítulos estudantis independentes, liderados por alunos, com autonomia para organizar debates, palestras, campanhas de liberdade de expressão e eventos patrióticos dentro das próprias instituições. Não se tratava apenas de protestar, mas de normalizar a presença conservadora em espaços onde ela havia sido empurrada para a marginalidade.
Com orçamento anual superior a US$ 90 milhões, em pouco mais de uma década a TPUSA construiu uma rede de mais de 3,4 mil capítulos ativos em universidades e escolas de ensino médio, alcançando centenas de milhares de estudantes e formando uma geração inteira de jovens treinados em organização política, comunicação, mobilização de base e enfrentamento cultural.
No Brasil, o cenário não é muito diferente — talvez seja ainda mais desfavorável. Universidades públicas e muitas instituições privadas tornaram-se ambientes praticamente homogêneos do ponto de vista ideológico. Professores militantes, centros acadêmicos aparelhados e movimentos estudantis hostis frequentemente transformaram o conservadorismo em tabu, quando não em alvo de intimidação.
Replicar o modelo da TPUSA no Brasil significaria romper essa assimetria. Capítulos organizados em faculdades e colégios poderiam abrir espaço para debates sobre economia de mercado, liberdade individual, valores familiares, crítica ao marxismo cultural e limites do ativismo identitário — temas que interessam a muitos jovens, mas raramente encontram respaldo institucional.
O diferencial desse modelo está na formação de lideranças orgânicas. A TPUSA não depende apenas de grandes nomes nacionais. Ela transforma estudantes comuns em organizadores locais, porta-vozes e multiplicadores. No contexto brasileiro, isso poderia gerar uma base de jovens preparados para atuar em eleições municipais, movimentos cívicos, produção de conteúdo digital e articulação política regional, reduzindo a dependência de figuras isoladas.
Outro ponto central foi a decisão de reduzir a idade do engajamento. A TPUSA concluiu cedo que esperar pela universidade era tarde demais. Por isso, avançou para o ensino médio e passou a oferecer estrutura, treinamento e apoio a clubes estudantis e iniciativas voltadas a alunos mais jovens. No Brasil, onde o currículo escolar vem incorporando cada vez mais pautas ideológicas — especialmente em temas de gênero e história —, incentivar a organização de alunos e pais em colégios pode funcionar como um freio à captura precoce das mentes.
Mais do que uma resposta defensiva ao domínio cultural da esquerda, esse modelo representa uma estratégia ofensiva de longo prazo. Charlie Kirk entendeu algo que muitos conservadores brasileiros ainda relutam em aceitar: quem forma os jovens hoje molda o debate político de amanhã.
Lição 2 – Crie eventos anuais massivos para unir, energizar e dar identidade ao movimento
Outra lição central deixada por Charlie Kirk foi compreender que movimentos políticos precisam de momentos de convergência coletiva. Não basta atuar o ano inteiro de forma dispersa, em capítulos locais ou ações pontuais. Grandes encontros presenciais concentram energia, reforçam identidade, renovam o ânimo e tornam visível a força acumulada ao longo do tempo.
Foi dessa intuição que nasceu o AmericaFest. Criado pela Turning Point USA em 2021, o evento começou de forma modesta, quase como uma alternativa informal às conferências conservadoras tradicionais, como a CPAC. Desde o início, misturou política com entretenimento, com menos formalismo partidário e linguagem mais jovem e direta. Palestras de lideranças conservadoras dividiram espaço com shows musicais, entrevistas ao vivo, participações de celebridades e amplas áreas de convivência.
A fórmula se mostrou eficaz. Em poucos anos, o evento deixou de ser experimental para se tornar um dos maiores encontros conservadores dos Estados Unidos. Em 2023, reuniu cerca de 13 mil participantes; em 2025, ultrapassou a marca de 30 mil atendimentos ao longo dos dias.
Essa evolução acompanhou um desenho pensado para mobilizar públicos amplos. Kirk entendeu que, para atrair e reter jovens, não bastava repetir discursos ideológicos: era preciso oferecer uma experiência completa. O AmericaFest passou a funcionar como ponto de encontro anual da direita jovem, reunindo ativistas, influenciadores, parlamentares, financiadores e organizações parceiras. Ali se formam redes, articulam-se projetos e renovam-se lideranças com alcance nacional.
Em 2025, já consolidado, o evento ocupou integralmente o Phoenix Convention Center, com um palco principal capaz de receber dezenas de milhares de pessoas e uma programação paralela distribuída entre auditórios, estandes e encontros fechados. O número de expositores ultrapassou a centena, e a programação se estendeu por vários dias, com sessões de treinamento, painéis temáticos e atividades noturnas. Não era apenas uma conferência — a escala revelava alto grau de coordenação e capacidade organizativa.
Para a direita brasileira, trata-se de uma lição ainda pouco assimilada. O campo conservador no país costuma se reunir de forma fragmentada, em eventos pequenos, esporádicos e pouco integrados entre si. Falta um encontro anual de grande porte, reconhecido nacionalmente, que funcione como referência simbólica e operacional do movimento.
Eventos dessa natureza cumprem várias funções ao mesmo tempo: reforçam identidade coletiva, reenergizam a base após derrotas, ampliam visibilidade pública, aproximam lideranças nacionais da militância local e facilitam a entrada de novos participantes, especialmente jovens. Ao transformar um congresso em festival, Kirk criou um espaço em que o conservadorismo deixou de ser apenas uma posição defensiva e passou a ser vivido como pertencimento.
Charlie Kirk entendeu cedo que movimentos incapazes de se reunir e se reconhecer coletivamente tendem a se dispersar. O AmericaFest foi a resposta prática a esse problema — e acabou se tornando um dos pilares da força construída pelo Turning Point ao longo da última década.
Lição 3 – Alcance minorias e comunidades sub-representadas
Uma das estratégias mais eficazes adotadas pela Turning Point USA nos últimos anos foi a criação do TPUSA Rise, programa voltado ao engajamento de minorias étnicas — especialmente da comunidade negra — no conservadorismo. A iniciativa partiu do reconhecimento de que valores como fé, família, liberdade econômica e responsabilidade individual não são estranhos a essas populações; ao contrário, fazem parte de seu cotidiano, embora sejam frequentemente ignorados ou distorcidos pelo discurso político dominante.
Sob a liderança de Pierre Wilson, o TPUSA Rise se estruturou a partir da premissa de que minorias não precisam ser tratadas como vítimas permanentes do sistema, mas como indivíduos capazes de prosperar por meio do trabalho, da educação, do empreendedorismo e da coesão familiar. Em vez de disputar espaço com a narrativa identitária baseada na dependência estatal, o programa aposta em autonomia, responsabilidade pessoal e fortalecimento comunitário. Com isso, passou a organizar eventos em colégios e universidades — algo impensável para grupos conservadores até poucos anos atrás — e a ocupar espaços historicamente dominados pela esquerda.
O painel do Rise no evento deixou claro que a proposta não era suavizar o discurso para torná-lo palatável. Entre os palestrantes estavam Vince Everett Ellison, Craig Long, Bianca Gracia e Asmaou Evbuomwan-Owa. O eixo comum foi a rejeição frontal da política identitária como chave explicativa da desigualdade racial.
Pierre Wilson também dedicou parte de sua fala a rebater acusações recorrentes de que Charlie Kirk seria racista. Rejeitou essa leitura de forma categórica e recorreu à experiência pessoal para sustentar o argumento. “Quando dizem isso, eu sempre pergunto: você conheceu o Kirk? Porque eu conheci. E ele era um bom homem”, afirmou, sob aplausos da plateia.
Vince Ellison adotou um tom ainda mais direto ao atacar a lógica da vitimização. Na abertura do painel, disse: “Você não é oprimido porque é negro. É oprimido porque é fraco”. A formulação sintetizou o espírito do Rise: deslocar o debate racial da estrutura para a responsabilidade individual, recusando a ideia de que identidade determine destino. As críticas à vitimização racial foram reforçadas na exibição do documentário Race War, produção do TPUSA que aborda raça, política identitária e conflitos culturais nos Estados Unidos a partir da perspectiva do conservadorismo
Outro ponto recorrente nas falas do TPUSA Rise foi a referência explícita às influências cristãs dos palestrantes. Isso aparecia não apenas no conteúdo, mas no modo de falar, nas referências e na forma de enquadrar problemas sociais. Fé cristã, responsabilidade pessoal, disciplina e redenção eram tratadas como fundamentos culturais, não como algo a ser escondido ou suavizado para agradar plateias externas. Não havia constrangimento em assumir essa base — pelo contrário, ela era apresentada como parte central da identidade do movimento.
Essa postura se conecta diretamente a outro eixo enfatizado no Rise: a primazia da cultura sobre a política. Um dos slogans mais repetidos nos painéis era “cultura > política”. A ideia é que disputas eleitorais são consequência, não causa. Antes de vencer eleições, é preciso disputar valores, linguagem, comportamento e referências morais dentro das comunidades.
Nesse sentido, o TPUSA Rise não se apresenta como um projeto eleitoral de curto prazo, mas como uma estratégia cultural. A aposta está menos em leis e mais na transformação de mentalidades. Para seus líderes, sem uma base cultural sólida — ancorada em fé, família e responsabilidade — qualquer vitória política tende a ser passageira.
No Brasil, essa experiência oferece um contraste evidente. Os movimentos conservadores não possuem ações específicas voltadas ao público negro, apesar de uma parcela expressiva da população mais pobre, religiosa e conservadora costume votar à direita.
Um programa inspirado no TPUSA Rise poderia alterar esse quadro. Ao seguir esse caminho, os conservadores brasileiros não apenas ampliariam sua base eleitoral, como também disputariam a hegemonia cultural em territórios hoje tratados como monopólio da esquerda. A experiência do TPUSA Rise mostra que, quando o conservadorismo fala diretamente às minorias por meio de lideranças autênticas e linguagem conectada à realidade local, deixa de ser apenas uma alternativa eleitoral e passa a operar como projeto cultural duradouro.
Lição 4 – Integre fé e valores cristãos no centro da mensagem
Uma das forças mais consistentes — e frequentemente subestimadas — do Turning Point USA está na forma como a fé cristã foi integrada não como ornamento retórico, mas como eixo estruturante da identidade do movimento. Desde o início, Charlie Kirk defendeu que os Estados Unidos foram fundados sobre princípios judaico-cristãos e que a liberdade política só se sustenta quando ancorada em valores morais objetivos. Essa visão se traduziu em estrutura organizacional: capítulos específicos voltados à fé, eventos iniciados com oração e palestrantes que falam abertamente sobre cristianismo sem receio de estigmatização.
No AmericaFest, essa integração é visível e cotidiana. Em 2025, poucos meses após o assassinato de Kirk, o tom do evento foi marcadamente confessional. Tributos ao fundador destacaram seu compromisso religioso; painéis discutiram a fé como resposta à crise cultural contemporânea; e apresentações musicais de inspiração cristã ocuparam o palco principal. Não havia esforço em disfarçar essa identidade — ao contrário, ela era apresentada como fundamento do movimento.
Palestrantes e lideranças insistiram em uma ideia recorrente: a crise política americana é, antes de tudo, uma crise cultural e espiritual. Em diferentes painéis, repetia-se a noção de que mudanças eleitorais são consequência de disputas mais profundas sobre valores, linguagem e comportamento.
Esse enfoque ajuda a explicar por que o Turning Point investe tanto em juventude, universidades, igrejas e espaços simbólicos. Ao contrário de movimentos centrados apenas em ciclos eleitorais, a organização opera com horizonte de longo prazo, tratando fé, família e responsabilidade individual como pilares formativos. Discursos de lideranças políticas, como J. D. Vance, reforçaram a ideia de que a reconstrução nacional passa necessariamente por renovação moral, e não apenas por reformas institucionais.
Para o conservadorismo brasileiro, essa experiência oferece um contraste evidente. O Brasil é majoritariamente cristão, com forte presença católica e crescimento contínuo das igrejas evangélicas, mas essa base costuma ser acionada quase exclusivamente em períodos eleitorais. Falta integração orgânica entre fé, formação cultural e estratégia política de longo prazo. Em muitos casos, valores cristãos aparecem como slogan, não como estrutura.
Integrar a fé ao centro da mensagem significaria ir além de citações pontuais em campanhas. Implicaria criar espaços permanentes de formação, apoiar iniciativas universitárias e comunitárias com identidade confessional clara, formar lideranças jovens capazes de articular uma cosmovisão cristã diante de temas como família, aborto, ideologia de gênero e relativismo moral, e assumir que a disputa central não é apenas por votos, mas por referências culturais.
O Turning Point mostrou que, quando a fé é tratada como fundamento — e não como embaraço —, o conservadorismo ganha densidade moral, coesão interna e capacidade de mobilização que transcende eleições. Em um país como o Brasil, onde a batalha cultural também é travada no campo dos valores religiosos, essa integração pode definir se o movimento permanecerá reativo ou se conseguirá, de fato, moldar o debate público no longo prazo.
Lição 5 – Debater divisões internas sem medo e defender a liberdade de expressão
O Turning Point USA — e, de forma ainda mais evidente, o AmericaFest de 2025 — revelou algo pouco comum em movimentos políticos contemporâneos: a disposição de expor conflitos internos em público sem recorrer à censura como mecanismo de controle. Em vez de fabricar uma unidade artificial, a organização permitiu que as divergências emergissem, tratando a liberdade de expressão como um ativo central, não como um risco a ser administrado.
O momento tornava essa escolha especialmente sensível. O evento ocorreu apenas três meses após o assassinato de Charlie Kirk, o que poderia justificar uma programação mais contida, homogênea e avessa a controvérsias. A decisão foi a oposta. O AmericaFest acabou se consolidando como um espaço de debate aberto sobre os rumos da direita americana — exatamente como Kirk viveu e morreu: expondo divergências, enfrentando conflitos e recusando o conforto do silêncio.
Logo no primeiro dia do evento, o comentarista político Ben Shapiro dirigiu um apelo ao público conservador para que rejeitasse teorias conspiratórias infundadas — em especial as acusações levantadas por Candace Owens sobre a morte de Charlie Kirk. Owens vinha sugerindo, em versões distintas, que Kirk teria sido assassinado por culpa de Israel ou até por integrantes do próprio Turning Point USA. Shapiro reagiu com dureza. Disse que formadores de opinião têm responsabilidade com o público e com a verdade, e que não podem substituir fatos por insinuações ou narrativas emocionalmente convenientes.
Sem rodeios, citou nomes. Além de Candace Owens — que havia trabalhado no Daily Wire e foi desligada após sucessivas controvérsias —, criticou Steve Bannon, Tucker Carlson, que dera espaço a Nick Fuentes em seu programa, e outros influenciadores que, segundo ele, normalizam figuras extremistas e alimentam desinformação. A mensagem central foi clara: a liberdade de expressão não exonera ninguém do dever de apresentar evidências e responder pelas próprias afirmações.
Em resposta, Bannon, Carlson, Jack Posobiec e Megyn Kelly dedicaram parte de suas falas — dentro e fora do evento — a atacar Shapiro, acusando-o de impor testes de pureza ideológica e de tentar silenciar dissensos legítimos dentro da direita. Tucker Carlson defendeu o direito de entrevistar vozes controversas, rejeitou o rótulo de antissemitismo e argumentou que criticar Israel ou a política externa americana não equivale a odiar judeus, nem pode ser interditado por lealdades automáticas. Steve Bannon chamou Shapiro de “um câncer que está se espalhando” dentro do movimento. Após o evento, a jornalista Bari Weiss, que assim como Shapiro é judia, também passou a ser alvo de ataques por publicar, no Free Press, uma análise das falas do comentarista.
JD Vance e Donald Trump Jr. tentaram conter os danos em seus discursos, apelando à união do campo conservador. Ainda assim, o AmericaFest deixou explícito que a fratura entre a ala pró-Israel e setores do movimento AmericaFirst não é episódica, mas estrutural — e tende a se aprofundar. Mais do que uma disputa pessoal, o embate revelou duas visões inconciliáveis sobre limites morais, responsabilidade pública e o papel da verdade dentro da direita americana.
Um episódio específico acabou cristalizando essas tensões. O influenciador Myron Gaines circulou pelo evento usando um moletom com referências antissemitas. A peça trazia um personagem da Vila Sésamo cozinhando cookies em um forno, numa ironia dirigida a judeus assassinados nos campos de concentração — uma forma indireta de negação do Holocausto. Nós o vimos dentro do AmericaFest. Nas redes, circularam imagens de Gaines posando para fotos com Posobiec vestindo o moletom. Mais tarde, Gaines afirmou, de forma irônica, que teria sido expulso do evento.
Ainda assim, o episódio não define o conjunto. Pela nossa observação direta, a retórica antissemita esteve longe de ser a tônica do AmericaFest. O evento contou com ampla presença de influenciadores judeus, organizações pró-Israel e discursos reiterando que o antissemitismo é incompatível com valores cristãos — inclusive por palestrantes que divergiam de Shapiro em outros temas. Para quem acompanhou o evento de perto, ficou claro que a TPUSA não opera a partir de unanimidade forçada. Trata-se de uma coalizão heterogênea, atravessada por divergências reais, mas unificada por um princípio básico: o direito de falar.
Para a direita brasileira, a lição é direta. Divergências internas não precisam levar à implosão nem ao silêncio. O AmericaFest mostrou que é possível debater em público, absorver o conflito e seguir operando. Movimentos se fortalecem quando enfrentam suas contradições à luz do dia, sem perder o eixo.
Lição 6 – A cultura precede a política
Uma das ideias mais recorrentes entre Charlie Kirk e a Turning Point USA é a de que a cultura antecede a política — e é mais decisiva do que ela. Sem uma base cultural sólida, vitórias eleitorais tendem a ser frágeis e reversíveis. A cultura molda a política muito antes de qualquer eleição. Leis podem ser revogadas, governos substituídos, mas quem define o que é “normal”, “aceitável” ou “desejável” para a próxima geração controla o terreno sobre o qual a política passa a operar.
Essa leitura orientou toda a estratégia da organização. Em vez de concentrar esforços apenas em campanhas eleitorais ou articulações institucionais, a TPUSA investiu na reconquista cultural: presença constante em universidades, produção de conteúdo pensada para viralizar, podcasts diários com milhões de ouvintes e grandes eventos como o AmericaFest, que misturam política, entretenimento e identidade.
O próprio AmericaFest foi concebido como uma experiência imersiva, com produção de arena, música ao vivo, vídeos cinematográficos e ritmo de festival. A mensagem é transmitida tanto pelo conteúdo quanto pela forma: o conservadorismo aparece como algo vivo, contemporâneo e desejável. Em 2025, mesmo após a morte de Kirk, essa lógica se manteve, com painéis sobre educação alternativa, família, fé, saúde e valores ocupando tanto espaço quanto discursos eleitorais. A ideia transmitida era clara: conservadorismo não é apenas um programa político, mas uma visão de mundo completa, capaz de oferecer sentido, pertencimento e horizonte cultural.
Nesse ponto, o uso de celebridades e influenciadores não funciona como acessório, mas como parte central da estratégia. A presença de Nicki Minaj no AmericaFest ampliou o alcance do evento para públicos que jamais consumiriam conteúdo político tradicional. Seus trechos circularam amplamente nas redes, levando argumentos sobre liberdade de expressão a jovens que sequer se identificavam como conservadores.
Para os conservadores brasileiros, essa lição é decisiva e frequentemente ignorada. Aqui, a direita reage à pauta cultural progressista, mas raramente lidera uma ofensiva própria. Conquista vitórias eleitorais pontuais enquanto novelas, músicas, universidades e influenciadores seguem moldando valores no sentido oposto. O resultado é um movimento permanentemente defensivo.
Levar a disputa cultural a sério significaria investir em produção cultural competitiva, formar criadores com linguagem popular, apoiar artistas alinhados a valores conservadores e ocupar periferias e classes médias com mensagens sobre família, fé, trabalho e pertencimento — não como complemento da política, mas como sua base.
A experiência da Turning Point mostra que, quando o conservadorismo entende que a cultura vem antes da política — e age de acordo com isso —, ele deixa de apenas resistir. Passa a definir o terreno onde o futuro será disputado.
Lição 7 – Dê espaço a iniciativas não políticas
Um dos segredos do AmericaFest não está apenas no palco, mas no “andar de baixo”, no exhibit hall. Ali, a TPUSA transforma um evento político em infraestrutura social. Em vez de depender exclusivamente de discursos e eleições, vê-se uma feira de redes e soluções: gente recrutando, vendendo, treinando e conectando.
Isso altera a lógica do movimento. Quando o conservadorismo aparece apenas como “uma pauta”, ele depende de indignação permanente para se manter vivo. Quando aparece como ecossistema, sustenta-se por hábito, comunidade e utilidade prática. No exhibit hall, há desde merchandising e suplementos até estruturas de mobilização e recrutamento — um indicativo claro da ambição: ocupar a vida cotidiana, não apenas o debate eleitoral.







A área de educação ilustra bem esse desenho. A Turning Point Education se apresenta como uma rede voltada a conectar escolas e education advocates em torno de awareness, connection and action, oferecendo apoio a currículos, recursos e treinamento, além de defender explicitamente uma educação “virtuosa”, ancorada em valores cristãos. No braço formativo, a organização mantém programas como o Prep Year — um ano in residence pós–high school — com currículo cristão, clássico e cívico, além de conexão direta com a rede da TPUSA.
O ganho político desse modelo é significativo. Em vez de “pedir voto”, o movimento passa a produzir pertencimento. A entrada ocorre por homeschooling, saúde, família, comunidade, igreja ou carreira — e, quando chega a eleição, o indivíduo já está inserido numa rede que fala a mesma língua, confia nas mesmas fontes e dispõe de canais prontos para mobilização. O resultado é menos “campanha” e mais organização permanente.
No Brasil, a versão madura dessa lição seria deixar de tratar eventos como comícios e passar a tratá-los como hubs. Num eventual “BrasilFest”, o centro não seria apenas o palco, mas um espaço curado onde educação, pró-vida, família, saúde, cultura, direito, empreendedorismo e redes religiosas se conectam. Assim, a direita deixa de ser um conjunto de indignações episódicas e passa a operar como um sistema de apoio, do qual as pessoas saem com contatos, ferramentas e vínculos concretos.
Essa é a diferença entre sobreviver de ciclo em ciclo e ganhar o longo prazo: construir uma vida paralela viável — e, a partir dela, fazer política com menos desespero e mais consistência.
Lição 8 – Foquem em mobilização de base e voluntários
O motor real do crescimento da Turning Point USA nunca foram apenas grandes nomes ou eventos vistosos, mas a construção paciente de uma base organizada de voluntários. A força da TPUSA está nos milhares de capítulos locais que transformam discurso em ação cotidiana. É ali, longe dos palcos, que a guerra cultural é travada de forma contínua.
Hoje, a organização mantém milhares de capítulos em universidades e escolas, liderados por estudantes treinados para agir localmente. Esses núcleos organizam debates, palestras, campanhas em defesa da liberdade de expressão, ações eleitorais e iniciativas de recrutamento. A direção fornece método, material e missão; a execução fica a cargo das lideranças locais. Isso torna a estrutura ao mesmo tempo escalável e resiliente.
O AmericaFest funciona como catalisador desse sistema. Uma parte central do evento é dedicada ao treinamento prático: como criar um capítulo, organizar eventos no campus, responder a ataques ideológicos, usar redes sociais para mobilizar e transformar simpatizantes em voluntários ativos. Muitos participantes deixam o evento com tarefas definidas, contatos estabelecidos e cronogramas claros.
A principal vantagem desse modelo é a descentralização. Um capítulo pode começar pequeno, com cinco pessoas, e crescer de forma orgânica à medida que se enraíza no território. Isso ajuda a explicar por que a TPUSA seguiu operando mesmo após a morte de Charlie Kirk. Os capítulos não dependem de um líder nacional, mas de centenas de lideranças intermediárias com autonomia e propósito.
No Brasil, essa talvez seja a maior lacuna do campo conservador. Há mobilização episódica — grandes manifestações e engajamento online —, mas pouca capilaridade permanente. Falta presença organizada em universidades, bairros, igrejas, conselhos escolares e associações locais. Sem isso, o movimento permanece dependente de picos emocionais e de lideranças individuais.
Se os conservadores quiserem disputar cultura e poder de forma duradoura, precisam parar de pensar apenas em eleições e começar a investir seriamente em voluntariado estruturado, ação local contínua e formação de lideranças intermediárias. É assim que um país muda: de baixo para cima.










Parabens !! Uma analise completa do "caminho das pedras" . Apesar da tristeza de saber que o Brasil está a anos-luz disto, fico muito feliz e esperançosa de que os EUA consigam se fortalecer e , quem sabe, liderar pelo exemplo